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Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Saúde | |||
| Escrito por Luís Peazê | |||
| Terça, 27 Abril 2010 19:05 | |||
(nota: este artigo está escrito em português do Brasil) origem: Brasil![]() A barrigada dos palhaços: Notícias sobre Hipertensão Luís Peazê, no Brasil Na investigação de um fato é mandatório o jornalista obter informação de pelo menos duas fontes. Básico. Na investigação de uma notícia não necessariamente factual, a coisa é mais volátil, e, buscar informação em duas fontes pode encobrir o fato de que o jornalista está na verdade pegando a mesma informação reforçada por uma fonte de mesma opinião, nada mais. Neste caso ele corre o risco da barrigada, e um picadeiro fértil para isso é o da ciência e outros assuntos que demandam um pouco mais de esforço do profissional do bloquinho e da caneta. Está aí a enxurrada na mídia brasileira provocada por palhaços, desta semana de 25 de abril de 2010, e notícias desastrosas sobre hipertensão. O filme é o de sempre, os principais culpados não são necessariamente os repórteres, são os chefes de redação e os editores, que teoricamente têm mais condições de olhar a vastidão do mundo de sobre uma grua lá no andar mais acima. E não olham. Hoje tem marmelada, tem sim senhor. Morgan Spurlock, diretor de cinema e ator em seu próprio filme SuperSize Me (que no Brasil recebeu o sub título de A Dieta do Palhaço), produziu um estudo de caso interessante sobre hipertensão, e principalmente dietética. Alimentou-se exclusivamente de produtos McDonald durante um mês. Antes da experiência masoquista, assim definida por ele mesmo, estava em perfeitas condições de saúde, passou por exames médicos e sua pressão era normal. Já nos primeiros 15 dias sua pressão era 14 por 9,5. No final dos 30 dias foi a 160 por 95 e 100. Se o Spurlock tivesse ido a um médico, depois daquela loucura, mas não dissesse que era o famoso e satírico diretor, o médico certamente diria que ele tinha uma hipertensão, a classificaria como hipertensão arterial essencial (sem causa) e lhe recomendaria um remédio para baixar a pressão pelo resto da vida. É verdade que o diagnóstico de hipertensão é o mais fácil da medicina, porque é quantitativo. Basta você colocar um aparelhinho de medir a pressão no braço do indivíduo, e sabe-se na hora se ele está com a pressão alta. Daí em diante é um festival de circo tanto do médico, quanto do cliente, e o jornalista vai atrás – hoje tem marmelada, tem sim senhor. À parte os casos de pressão alta momentosa (como algumas matérias de TV alertam, por conta do exame ser feito em local impróprio, enquanto o indivíduo examinado está sob estresse e etc), a hipertensão que é um processo crônico, que só impacta o organismo ao longo de vários anos de incidência, tende a ser abordado de forma simplista. Geralmente, no diagnóstico inicial, as pessoas fazem alguns exames, para ver se têm doença supra renal, ou vascular (hipertensão secundária). Mas, a grande maioria dos hipertensos são classificados de essenciais, que é o termo usado pela medicina quando não se sabe a causa. O outro lado da moeda, da notícia. Outra sobrecarga crônica do sistema cardiocirculatório é a hipertensão arterial, que acomete cerca de 20% dos brasileiros adultos. É comum, no dia-a-dia do médico, ele encontrar o paciente obeso, com hipertensão, diabético, e com alteração de tiróide, e tudo fica como se fossem manifestações de doenças diferentes e não a expressão de um processo continuado e avançado de sobrecarga e degeneração do organismo. Alguns dados interessantes são destacados naquele filme: a cada dia, 1 entre 3 americanos visita um restaurante de fast food. 2 em cada três americanos adultos estão acima do peso ou são obesos, 60% da população. Uma pessoa tem que caminhar por sete horas ininterruptas para queimar as calorias de um sanduíche, com batata frita e refrigerante do McDonald. Nos Estados Unidos se come mais de um milhão de animais por hora. Uma em cada três crianças irá desenvolver diabetes durante a sua vida. A obesidade irá ultrapassar o tabagismo como causa mortis na América. A obesidade está relacionada com a hipertensão, doença coronária, diabetes, enfarte, osteoartrite, problemas respiratórios, mamas, câncer de próstata e colon, resistência insulínica, asma, reprodução anormal de hormônios, disfunção da fertilidade, entre outros males. A ONU declarou a obesidade como uma epidemia global. Antes de começarem a falar, a maioria das crianças já reconhecem a marca McDonald. A grande barriga da mídia nesta semana é seguir a esteira do circo da indústria farmacêutica, da indústria dos diagnósticos (de industrialização de dispositivos de diagnósticos e de procedimentos, uma alimenta as demais) e da indústria alimentícia. Por que, como assim? Por que os jornalistas não estão informando na mesma matéria sobre o outro lado da moeda, a outra fonte antagônica de informação, para que o público decida o que fazer da própria vida. A Globo, por exemplo, chega a ser tão didática que até eu, um pobre Homer, quase caio no seu charme professoral. Disse “o ministro encontrou um jeito com humor para fazer recomendações”, a Band esboçou um sorriso maroto e realçou que o ministro recomendou o sexo para baixar a pressão. Logo onde havia um viés para o outro lado da notícia, um e outro perdeu a chance, todos os demais também. Ora, a hipertensão quase sempre é sobrecarga do organismo, desequilíbrio, estresse orgânico, dinâmica degenerativa, sobrecarga do sangue com o aumento da tendência aglutinadora dos elementos sanguíneos, alteração funcional da microcirculação. Ou seja, estresse de todos os tipos, metabólico, endócrino, mental, ambiental. Mas a medicina hegemônica é cega para isso, pois é uma medicina lesional, que afirma haver uma causa de doença somente quando existe uma lesão. Quando as alterações são de caráter funcional ela não tem recursos cognitivos para perceber. Por isso, ela rotula o estado funcional de sobrecarga do hipertenso de sem causa (essencial). O jornalismo está perdendo justamente onde pode ser mais forte, no ataque com a cognição, com a capacidade de lidar com compreensão semiológica das questões, com a capacidade de ler e falar outros mundos. O problema visto por outro ângulo A hipertensão é, em grande medida, um problema da microcirculação. A medicina hegemônica foca muito a macrocirculação, os grandes vasos, e se esquece da microcirculação que é 99 % da circulação corpórea. A microcirculação é formada por capilares menores que um fio de cabelo. Quando existe dificuldade de fluxo na microcirculação ocorre o aumento da resistência periférica, que é o grande fator responsável pelo o aumento da pressão arterial. O coração faz a ejeção do sangue, a sístole, lança o sangue na rede arterial que corre pelos grandes vasos para os pequenos vasos. Se esse sangue tem dificuldade de entrar na rede capilar, seja por problema da rede ou da própria fluidez do sangue (dinâmica de fluxo), haverá um aumento da resistência periférica, resistência ao fluxo do sangue, e o consequente aumento da pressão dentro dos vasos. Assim, o coração passa a trabalhar com maior resistência, tendo que aumentar o seu trabalho, e o consumo energético. O funcionamento do sistema circulatório pode sinteticamente ser reduzido à relação de “continente” e o “conteúdo”. Todo foco da medicina oficial está orientado para o continente. As drogas usadas quase sempre agem dilatando os vasos ou diminuindo a reatividade vascular. Quando se mexe na regulação de abertura e fechamento dos vasos, através de medicamentos, altera um sistema de autoregulação extremamente complexo que o organismo usa para distribuir o sangue. O nosso sistema circulatório trabalha com a circulação efetiva, que é a distribuição precisa do fluxo conforme a necessidade do organismo. O que é isso? Nós temos cerca de 5,5 litros de sangue. Se os capilares (os vasos pequenos) da perna de um adulto abrissem ao mesmo tempo, todo esses 5,5 litros ficariam nessa perna. Se tivéssemos que manter todos os vasos cheios ao mesmo tempo, teríamos que ter um volume muito grande sangue, certamente mais de 30 litros. Não existiria bomba (coração) para bombear esse volume de sangue. Daí a importância da regulação do organismo na distribuição do fluxo. Quando se caminha, aumenta o fluxo para os músculos, quando se alimenta aumenta o fluxo na barriga e assim por diante. Quando você toma remédio para dilatar os vasos, o organismo reage aumentando o volume de sangue. Isso tende a sobrecarregar o coração que irá trabalhar com uma coluna líquida maior. Mesmo você baixando a pressão, como se fosse um encanador controlando válvulas de um sistema hidráulico complexo, forçará um nível de sobrecarrega pela volemia sanguínea. Num segundo tempo o aumento do volume vai produzir um aumento da pressão, daí o uso de uma segunda droga, geralmente um diurético. Aí a coisa vai se complicando. Saindo para o jogo, vamos ganhar! A medicina oficial prescreve um diurético com uma facilidade enorme, e não vê qualquer consequência para o organismo. Ora, o diurético vai perturbar o processo extremamente complexo do filtro renal e, certamente, consequências para o metabolismo quase sempre aparecem. O patologista alemão Helmut Heine diz ser o rim o cérebro do metabolismo corporal. Eu digo que o cérebro dos jornalistas nessas questões está na barriga, uma grande barriga de palhaço – não quero ofender os colegas, por favor tomem como uma brincadeira de concentração de futebol. E vamos lá para mais um jogo decisivo, vamos ganhar, gente! Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista, tradutor da obra "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. co-autor de "O Elo Perdido da Medicina", dirige a Clínica Literária – Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada às questões do meio ambiente marinho e costeiro - www.luispeaze.com/clinicaliteraria
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