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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Escrito por Pedro Mota | |||
| Sábado, 27 Março 2010 12:05 | |||
![]() Latitude do Olhar Uma das páginas mais negras da História Universal da Infâmia Ilha da Goreia – A porta Sem Regresso Texto e fotos: Pedro Mota ![]() Seguimos a pista da milenar rota das caravanas de sal (azalai). Vamos ao longo do Erg Ocidental do deserto do Sara e da Mauritânia até às longínquas salinas do oásis de Bilma. Aí, no salar resultante de um braço de mar que secou, o mineral essencial da vida cristalizava lentamente nas bacias de evaporação, que por sua vez são alimentadas por nascentes termais. O sal era cortado na forma de cones ou pães com cerca de 15 kg. Depois, vinham grupos de nómadas, na maioria Tuaregues, que carregavam os seus dromedários com os imensos blocos brancos e partiam de novo num incessante vai e vem através do imenso deserto. Na noite antes da partida os adufes eram rodados perto da chama das fogueiras para aquecer a pele e assim afinar os pequenos tambores. Pela noite fora, os pontos rubros das fogueiras eram como corolas de fogo rodeadas por pétalas de sombras em perpétuo movimento no compasso bem ritmado das danças tradicionais do deserto. Pela aurora, foi a passada cadenciada do oscilante barco do deserto que nos embalou como se um metrónomo marcasse o compasso. Seguíamos agora a “pista das estrelas”, com as constelações a balizarem a navegação através dos extensos ermos vazios. Seguíamos a “Camela” (Ursa Maior), os “Filhos da Noite” (Plêiades) ou ainda o “Pastor de Cabras” (planeta Vénus). De dia era o Sol a orientar a navegação, assim como as ossadas de camelos mortos que juncavam a trilha. ![]() A areia já apagou com o seu véu pudico os traços doutra rota milenar bem mais macabra, os traços da infame rota dos escravos que cobria com a sua teia de aranha venenosa todo o Norte de África. Esta rede sugava principalmente as tribos subsarianas para fornecer mão-de-obra a quem pagasse mais. As minas de sal do Sahel foram um dos mais tenebrosos destinos para muitos homens arrancados às suas origens. Como documenta a história da escravatura, num dos seus lados menos conhecido, muitos europeus foram também aprisionados, fruto das razias perpetradas ao longo das costas marítimas, para irem rebentar sob a inclemência do Sol dardejante e dos trabalhos forçados nas minas de sal-gema onde eram acorrentados num buraco de sal que, positivamente, lhes corroía o corpo e a alma enquanto talhavam os «queijos de sal». ![]()
Este facto é, estranhamente, fonte de esperança. Pois irmana, de certa maneira, os diferentes povos humanos, mais pelos seus defeitos do que pelas suas virtudes…mas de qualquer modo torna todos os humanos mais semelhantes e portanto com possibilidades de evoluírem em conjunto para estados mais evoluídos da consciência e da civilização. ![]() Tudo isto parece ter deixado marcas indeléveis na história de Portugal. Houve um rei (Dom João II) de visão e de sonho que acreditava nos valores humanistas da renascença e que, apesar de os tempos serem outros, acreditava na igualdade entre os homens e na primazia do espírito e do conhecimento científico e cultural sobre a mediocridade básica e pouco evoluída da gula económica. Tal é atestado pela ênfase no espírito de descoberta e de conhecimento cartográfico e cientifico das primeiras expedições dos descobrimentos. Esse foi o seu mal, pelos vistos era muito avançado para a sua época. É muito provável que tenha sido envenenado por se ter obstinado contra as «necessidades» económicas da amplitude dos novos territórios que urgiam de trabalho escravo para serem desbravados e dominados. Para substituí-lo veio Dom Manuel I, pelos vistos mais fácil de tornear. Apesar da sua natureza religiosa parecia ter tido alguma dificuldade em interpretar a mensagem de igualdade e compaixão deixada por Jesus Cristo… Ao menos ficou o legado de um estilo arquitectónico fantástico. ![]() Nessa altura, a igreja católica deu também um mau passo ao tolerar essa mácula terrível na história da humanidade que consistiu no advento da escravatura sem precedentes e à escala global. Ainda com o negrume desta infame história no espírito e um travo amargo na boca, sacudi a areia do casaco…mais fácil de afastar do que estas funestas lembranças e voltei a atenção para o trilho que seguia a caravana. ![]() A rota triangular da antiga rota do sal é uma verdadeira epopeia, cobrindo mais de um milhar de quilómetros através de desertos e pedregais. Nesse ano houve uma grande seca na região. Não era assim de admirar que muitos dos poços que cruzámos no erg estivessem secos. A caravana já serpenteava num cambaleio provocado pela sede. Os animais estavam exauridos mas apesar disso eram incitados a uma marcha forçada pois urgia atingir o próximo ponto de água. ![]() Para piorar tudo, veio uma tempestade de areia que forçou a que todos permanecessem deitados, abrigados pelos animais e cobertos com os panos de tenda. O Sol, o vento tenaz, a sede e a areia fina a insinuar-se por todo o lado, faziam estalar a pele e gretar os beiços. ![]() Ao atingirmos extenuados a almejada água da vida ri-me de alívio e do paradoxo de quase termos morrido no deserto para transportar…sal. No dia seguinte os nossos caminhos divergiram. Eles a caminho de mais uma volta inglória da sua rota de Sísifo, o tal que fora condenado a um trabalho eterno…e inútil, de empurrar até ao fim dos tempos, uma pedra até ao cume de uma montanha onde ela voltava a rolar até ao sopé do outro lado do monte. Nós rumámos ao Mali, terra da misteriosa Tombuctu, do festival do deserto e do povo dogon. ![]()
Entrámos pelo Niokolo-Koba, no Senegal, cruzámos o lago Rosa onde também é extraído o sal e que marca a nossa chegada próxima a Dakar. O azimute leva-nos para a ilha da Goreia, terra de triste memória por ter tido um papel capital como ilha de embarque de escravos no tráfico negreiro. Através da malfadada «porta sem regresso», os malogrados habitantes das terras vizinhas, apanhados nas malhas do vil comércio de «madeira de ébano» (eufemismo para tráfico de escravos), embarcavam aos magotes nos veleiros para irem desbravar o Novo Mundo. Primeiro eram marcados com ferro em brasa e agrilhoados, depois eram agrupados por categorias e passavam para a «casa dos escravos» onde os aguardava a última etapa de preparação antes de cruzarem o umbral da «porta sem regresso» que os levava ao embarque nos abomináveis navios negreiros e ao adeus definitivo à sua África natal. ![]() As razias, a princípio, não eram perpetradas pelos europeus promotores do tráfico, pois estes eram o último elo numa longa cadeia de intermediários locais. O aprovisionamento de escravos era garantido pelas milenares rotas da escravatura do centro do continente africano. A rota dos escravos esvaziava o continente africano para encher o Novo Mundo, provendo-o com mão-de-obra para as plantações das Américas. ![]() É tempo de abandonar estas paragens de má memória, vamos deixar que os ventos alísios enfunem as nossas velas e navegar em direcção a Cabo Verde, como faziam os antigos veleiros seguindo a rota transatlântica. Aproaremos, então, ao arquipélago onde o cruzamento entre várias etnias africanas com o sangue europeu gerou um novo povo de qualidades excepcionais que ainda hoje podemos constatar, quer ao nível da criação musical empolgante, quer na produção literária de extrema qualidade. Soltámos as amarras…
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