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1 de Março de 2010Os 100 Artigos + lidos
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Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Escrito por Pedro Laranjeira | |
![]() Pedro Laranjeira Há ASAEs por esse mundo fora, para todos os gostos, com matizes legais de coloridos vários, até mesmo no coração civilizado desta Europa de vanguardas. É o caso da bronca tabagista que grassa em crescendos de fúria no país com a legislação mais tolerante do mundo: a Holanda. Nem mesmo a "laranja mecânica" do futebol nederlandês tem a visibilidade internacional das duas coisas por que o país é famoso a nível planetário: as tulipas e o consumo liberalizado de drogas. É claro que há o "Red Light District", com as prostitutas em vitrinas, mas a única diferença que existe em relação ao resto do mundo são as vitrinas, o produto e a oferta não diferem em nada… inédito, sim, é o comércio legal de drogas proibidas em todo o lado, com a oferta simultânea de locais aprazíveis e adequados para o seu consumo. Primeiro Coffee Shop em Amesterdão ![]() Tudo começou em 1976, quando a marijuana foi despenalizada. Passou a ser legal ter até 30 gramas. Desde 1980, floresceram estabelecimentos que passaram a ser conhecidos por "Coffee Shops". Há quase dois mil em toda a Holanda, com perto de quatrocentos só em Amesterdão. Podem fornecer 5 gramas de "produto" por cliente, quer para levar quer para consumir no local. Em 2007, uma directiva legal forçou todos os estabelecimentos a escolher entre servir álcool ou canábis: a maioria, entre o "copo" e a "passa", optou pelos canabinóides. Em 2008, porém, "rebentou a bomba". Foi no dia 1 de Julho - e desde então tudo ficou diferente, de um modo que, para dizer o mínimo, é desconcertante. Que se passou? Simples: nesse dia, entrou em vigor na Holanda uma Lei do Tabaco em tudo semelhante à portuguesa. Parecia não ser coisa por aí além… os Pubs irlandeses sobreviveram, à custa de enormes prejuízos, é certo, mas lá continuam (as ruas tradicionalmente limpas da Irlanda é que já não o são tanto), em Portugal a coisa vai… vai feia, verdade, mas os tugas são um povo de mil recursos e vão dando a volta ao assunto, entre os que cumprem a lei - leia-se "$e $ubmetem à$ regra$ de in$talação de novo$ equipamento$" - e os que ainda não tiveram a carinhosa visita da ASAE, que afinal os inspectores não são tantos como os portugueses que vão ao café. Mau mesmo foi só para os honestos cidadãos cumpridores que vão perdendo clientes na razão inversa dos aumentos do IMI ("Sisa", onde é que eu já tinha ouvido falar nisso?). Space Cake à base de haxixe Space Cake de marijuana ![]() ![]() Voltando à Holanda: dir-se-ia que a saída da nova lei do tabaco não parece coisa por aí além… Mas é! Um dos mais florescentes negócios do país é a venda e consumo de marijuana e haxixe, em estabelecimentos em que esse é o prato forte, quer para clientes fumadores quer sob a forma de elaboradas receitas culinárias de que a face mais visível são os bolinhos tipo "brownie", conhecidos por "Space Cakes". Se bem que a fúria anti-gastronómica dos inspectores lusitanos não pareça existir na Holanda, o mesmo não se passa relativamente ao fuminho em locais abertos ao público. ![]() Marijuana e haxixe continuam a ser legais, mas o tabaco não, desde 1 de Julho de 2008. Ora bem, é sabido que apenas 18% dos fumadores de canabinóides gostam do produto puro, o que quer dizer que mais de 80% fazem o charrinho com tabaco à mistura, para o tornar mais suave. Os fumadores de haxixe sabem que isto é normal: cortam um naquito da "pedra", que desfazem e misturam com tabaco de cigarro ou cachimbo, enrolam e acendem. ![]() Na Holanda, não. Já não. Agora só charros de droga pura passam as malhas da lei, se tiverem tabaco à mistura são ilegais. Ou melhor, o seu consumo dentro do estabelecimento é ilegal - na rua ainda se pode fumar (dêem-lhes tempo, que a velha Califórnia ainda "ensinará" o resto do mundo a proibir que se fume na via pública, já o faz nas esplanadas e até no exterior do Aeroporto de Los Angeles, na rua, cá fora, sim senhor). Tabela típica de um Coffee Shop ![]() Os holandeses vão mais devagar, contrariando embora a fama granjeada de ser o país mais liberal do mundo, mas não brincam em serviço: lei é lei, é para se cumprir! Assim, a "Autoridade para a Segurança Alimentar e do Consumo" (se isto fosse em português só a última letrinha seria diferente da nossa ASAE), responsável por fazer cumprir a lei, treinou um corpo de intervenção especializado nesta matéria, a que apetece mesmo chamar "matilha de rafeiros", (sem ofensa, que, de resto, o melhor amigo do homem não merece), dado que, segundo um porta-voz do organismo são capazes de detectar a presença de tabaco num charro apenas através do faro… perdão, do cheiro. São 200 inspectores que invadem os "Coffee Shops" para averiguar se misturado no benéfico haxixe não existe o maléfico tabaco. Mark Jacobsen, Director da BCD (Bond van Cannabis Detaillisten), uma associação de proprietários, comenta de forma assaz curiosa: "É absurdo! Nos outros países, vão ver se tens marijuana no teu cigarro, aqui vão ver se tens cigarro na tua marijuana!" Apesar de um artigo devastador publicado pela notável jornalista Kate Connolly no "Guardian" a denunciar uma política que colocou à venda perto de 1.600 Coffee Shops em todo o país e a revelar a intenção de centenas de proprietários de processar o governo, o Ministro holandês da Saúde, Ab Klink, declarou entretanto que a lei está para ficar. A ele se deve, aliás, uma curiosa posição para justificar os factos: diz o político que a redução de consumo resultante da lei, para além de contribuir para a melhoria da saúde, vai decerto contribuir para combater a preguiça: "Os clientes que passam o dia todo nos Coffee Shops vão agora ter que inventar outras coisas para fazer!" Paul Wilhelm, proprietário há 23 anos do famoso "De Tweede Kamer", em Amesterdão, diz que isto equivale a deixar um cliente comprar uma cerveja num bar mas mandá-lo bebê-la para a rua, porque lá dentro só de vodka para cima… "O objectivo do meu bar foi sempre o de proporcionar um ambiente agradável de convívio social. Esta lei ridícula vai acabar com isso!" O resultado é que já há quem forneça aos clientes variantes das tradicionais "barbas de milho", o que leva a imaginar que ervas estarão a ser fumadas, quem sabe se mais tóxicas que a velha folhinha da planta do tabaco que o nosso Colombo trouxe para a Europa. Entretanto floresce o comércio de "Space Cakes": já que não fumas, comes! Uma das soluções que está a ser usada é a de vaporizadores de 600 euros que aquecem o haxixe a 180º e canalizam o vapor para um balão, donde os fumadores o aspiram. Parece saudável?... Menu para todos os gostos ![]() Enquanto cientistas das Universidades de Londres e Warwick acendem um facho de esperança à humanidade utilizando a planta do tabaco como fulcro de um projecto que o jornal científico "Plant Biotechnology" acredita estar na eminência de produzir uma vacina viável contra a SIDA, os políticos defendem-nos do reverso da medalha: o fumo. Não nos defendem de cancros de pele e radiações gama cada vez menos filtradas por um ozono que as suas indústrias destroem, não desistem de despir o planeta de verde para vestirem cada vez mais dólares (ou euros), mas protegem as vítimas potenciais de um terrorismo ameaçado, embora não protejam as vítimas reais de massacres em África… e, claro, não nos defendem de respirarmos o veneno que sai de milhões de tubos de escape em todos os países do mundo. Não é só o nosso Sócrates que se vê acusado de ser forte com os fracos e fraco com os fortes, são todos os políticos do mundo. Dir-se-ia que para as classes detentoras do poder executivo, combater cartéis é como morder a mão que os alimenta... ou, por outras palavras, a voz do dono fala sempre mais alto. Quem pode, pode! É curioso como o paternalismo crescente das novas ditaduras democráticas se vai substituindo ao paternalismo tradicional das ditaduras antigas, na presunção de decidir do que deve ou não ser o povo "protegido"… já a primavera marcelista nos protegia de ver os seios da Julieta no acto de amor com Romeu, embora para tanto a censura tenha cortado a cena central da obra-prima de Zeffirelli, num filme que os portugueses viram castrado do seu ponto mais alto, tudo em nome da protecção dos carneiros coitados, por senhores iluminados que "sabem muito bem o que o povo precisa"… Agora na Holanda, ao abrigo da Lei, o povo precisa de fumar droga pura e dura.É claro que de uma forma geral somos todos drogados (ok, desculpem, quase todos): da heroína ao tabaco, do álcool à cafeína, do haxixe aos conservantes (e muitos outros terminados em "antes") que todos os produtos alimentares hoje contêm, para não falar no ar industrial que respiramos, ninguém pode arrogar-se afirmar que não consome drogas. Ainda por cima, os transgénicos fogem à lei e estão em todo o lado, desde os alimentos aos cosméticos…até em papas para bebé. Mesmo que a ASAE acabasse (ou criasse bom senso) já seria muito difícil comer frango do campo ou beber leite da vaca. Como está a tornar-se habitual ouvir, "não se percebe como os nossos avós sobreviveram!" Melhorar a higiene, sim, evitar contaminações, sim, mas então que fosse em relação a tudo e de uma forma sensata (já para não dizer científica), não em episódicos critérios duvidosos e sempre pontuais em detrimento de outros mais gritantemente perigosos… A intenção e o princípio são bons: as suas aplicações práticas são bizarras! O último ano de inspecções alimentares em Portugal e agora o "charros sim, tabaco não" da Holanda, mostram já os indícios do mundo para que caminhamos. Certos países abolem a pena de morte, outros metem na cadeia uma mãe de família por tirar o soutien na praia… já só falta proibir que se dê mama aos bebés, não vá a adulta passar qualquer vírus à criança… é uma questão de tempo… …e quando a nossa dinossáurica arrogância conseguir finalmente extinguir a espécie, o que parece cada vez mais inevitável, nenhuma boa intenção terá valido o esforço, nenhuma inteligência terá conseguido apontar-nos o essencial. Portanto, para voltar ao início, se tenciona ir à Holanda e está com vontade de experimentar a tradição dos "Coffe Shops", fale com o seu médico, ou logo à primeira corre o risco de estragar as férias com uma "overdose". O melhor mesmo é não tomar drogas… ou ir viver para uma ilha deserta! ![]()
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Agora na Holanda, ao abrigo da Lei, o povo precisa de fumar droga pura e dura.

