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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Escrito por Pedro Mota | |||
![]() O comboio desliza suavemente pelos campos abertos da Andaluzia. Os campos abertos e solitários parecem convidar ao aparecimento de um qualquer Dom Quixote que nos trouxesse, de novo, os sonhos e as quimeras a este mundo demasiado repleto de realidades. Os tons pastel da paisagem oscilam entre o beije e o ocre claro. Mas vão ganhando matizes mais verdejantes como que a adivinhar a proximidade de água. Após uma última curva entrámos languidamente no aconchego do vale do rio Darro. O casario espraia-se desde o fundo do vale até às várias colinas circundantes onde as vielas são estreitas e empinadas em franco contraste com as largas avenidas da zona baixa da cidade. À distância resplandece a cordilheira de cumes nevados da serra com esse nome. O Sol fosco de inverno dá um tom entre o amarelo-torrado e o laranja às construções da urbe, no cimo do morro que domina a cidade um vermelho ensanguentado encarniça a mole de pedra da Alcazaba. ![]() Chegámos a Granada, a magnífica. Este é um prazer que deve ser saboreado devagar…com requinte. Granada permanece como uma jóia do imaginário que já atraiu, como um farol na penumbra, muitos viajantes românticos ao longo dos tempos. Por aqui passaram, em busca de inspiração, muitos criativos de renome como: Salvador Dalí, Pablo Neruda, Manuel de Falla ou Jiménez. Nem eles viram as suas expectativas goradas nem nós fomos defraudados por alguma vã tentativa de sortilégio para espicaçar as musas. A zona baixa da cidade ostenta edifícios amplos e encorpados, mas belos nos seus ornamentos como sejam os motivos florais no ferro forjado das varandas que se debruçam para as avenidas. O mercado árabe que circula a grande catedral é multicolor e todo ele brilha de luz e cor como uma lantejoula. O aroma forte das especiarias faz-nos despertar os sentidos e traz-nos alegria por sermos e estarmos… Algumas baforadas de fumo azulado evolam-se de inúmeros narguilés de pescoço alongado gerando um ambiente de mistério e cimitarras. Estamos entranhados da atmosfera das mil e uma noites, mas não são contos pois nós pertencemos ao quadro. ![]()
Sinto-me abafado por demasiados veludos e brocados, nauseado e com asco pela memória do mau passo que o cintilante espírito da raiz helénica, a que hoje chamámos de ocidental, deu nesse tempo. ![]() Ainda levemente irritado com todos aqueles que não levam a sério as suas próprias crenças, subi a avenida em passo estugado como que para deixar as sombras insidiosas para trás. Agora procurava algo muito mais prosaico e que confere grande fama à cidade. As famosas tapas de Granada que na sua diversidade parecem saltar da cornucópia da abundância. Para desenfastiar e desentorpecer os membros nada como dar um longo passeio pelos jardins de Granada. Depois da copiosa refeição o humor já era mais prazenteiro e bonacheirão. No meio do jardim encontramos a casinha de Verão de Garcia Lorca, a proximidade desta boa alma comoveu-me. Sempre senti uma grande ternura por estes seres de excepção que partilham connosco o seu maior tesouro, o seu íntimo. ![]()
Pouco tempo depois da aurora, ainda se pode ver Vénus, qual estrela da manhã, a encimar o Alhambra, parece mesmo um prenúncio de boa-nova. Animado pelo bom augúrio dirijo-me com expectativa para o cântico dos cânticos da arquitectura andaluza. O Alhambra é a esmeralda perfeita da alma do Al Andaluz. Imortalizada por muitos criativos que lhe deram a sua mais do que justa dimensão universal. Primeiro percorro os jardins do Generalife com o seu omnipresente sussurro da água corrente e do casquinhar dos repuxos de água. Pequenos jorros de água pulsante parecem perseguir-se em intermináveis jogos de fauno nos meandros do jardim. O Alhambra deixa uma marca rubra na memória como se fora uma litografia a lembrar-nos que ainda existe muita beleza neste mundo vasto. Conhecer Granada é um privilégio para o viajante. Fez-me sentir como se tivesse merecido uma recompensa por algum feito já esquecido. Isto apesar do frio e da chuva copiosa destes dias invernais. De alguma forma a penumbra que esbate os contornos da cidade contribuí para lhe emprestar um aspecto onírico…quase irreal. A chuva, no fundo, foi um presente pois afastou as hordas de turistas que geralmente assolam de forma avassaladora a área circundante ao Alhambra. Posso ter um vislumbre do que seria habitar de forma solitária este expoente da construção e da arte como aconteceu ao escritor Washington Irving, o celebrado autor de “Contos do Alhambra”.
A atmosfera é quase de sonho, tudo parece ter um cariz musical: desde a geometria harmoniosa das veredas ajardinadas até aos sons líquidos da água escorrente, desde a imponente construção castrense da Alcazaba até aos floreados e harpejos do estuque trabalhado nas abóbadas da sala dos embaixadores nos palácios nazaritas. Na minha frente os jardins do Generalife estendem-se vazios, com as áleas ermas debruadas de verdura envoltas num manto de bruma. A imponência pesada e viril da fortaleza da Alcazaba contrasta com a volumetria quase flutuante dos palácios nazaritas onde os altos-relevos esculpidos a fino cinzel geram um rendilhado de uma singeleza diáfana. Essa composição de harmonia musical dos elementos geométricos presentes quer nos azulejos, nos ornamentos embutidos em madeira ou nas estruturas de estuque, parece ser o contraponto ao murmúrio omnipresente da água a gorgolejar. O Alhambra é poesia cristalizada na arquitectura. Arquitectura em que o elemento principal não é a pedra mas sim o ar, num jogo de formas e luz que resulta num caleidoscópio matizado a furta-cores. Onde só destoa um pouco a pesada estrutura do palácio de Carlos quinto como uma pesada tartaruga de pedra…
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