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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Reportagem | |
| Escrito por Cristina Maria Santos | |
| Quinta, 26 Agosto 2010 14:00 | |
![]() BIBLIOTECA-MUSEU DR. MANUEL LUCIANO DA SILVA --- HÁ NOVE ANOS QUE NÃO RECEBE VISITAS --- Cristina Maria Santos ![]() A Associação Dr. Manuel Luciano da Silva conseguiu os estatutos de Utilidade Pública e Isenção de Impostos, contendo uma Biblioteca com um espólio de interesse nacional e internacional, um Museu que representa a tradicional casa rural valecambrense e ainda uma suite para turismo rural. O emigrante luso-americano que deu nome a esta Associação lamenta que a mesma se encontre encerrada e teme mesmo pelo seu fim, remetendo alguma responsabilidade para a autarquia valecambrense, em relação à sua divulgação, bem como, à falta de disponibilização de um funcionário, durante quatro horas por semana, para abrir ao público esta Biblioteca. Em contrapartida, a autarquia valecambrense explica que esta nunca poderá ser liderada pela Câmara, uma vez que aquele tipo de infra-estrutura não encaixa na estrutura da rede da Biblioteca Municipal e que o papel da autarquia deverá ser de parceira e não líder. Comprometido está o futuro desta Biblioteca-Museu que se está a degradar a pouco e pouco. ![]() A Associação Dr. Manuel Luciano da Silva foi outorgada oficialmente na aldeia de Cavião, freguesia de S. Pedro de Castelões, em Vale de Cambra, a 18 de Maio de 1998, por um grupo de valecambrenses liderados pelo patrono Álvaro Pinho da Costa Leite, já falecido, originando a criação da Biblioteca-Museu com o nome de Manuel Luciano da Silva, com a finalidade de transformar a casa onde nasceu num museu e construir, no quintal contíguo, uma biblioteca moderna, para receber todo o seu espólio de emigrante luso-americano, nos Estados Unidos da América (E.U.A.), há mais de meio século. Estatuto de Utilidade Pública Esta Biblioteca-Museu foi inaugurada oficialmente no dia 12 de Junho de 2001, como uma instituição de direito privado, sem fins lucrativos, com o objectivo de “realizar, promover e patrocinar acções de carácter cultural, histórico, científico e educativo, predominantemente na região em que se insere, nos domínios dos direitos humanos, da ciência, das relações internacionais e da cooperação”, vocacionada para a obtenção do estatuto de Instituição de Utilidade Pública, que veio a conseguir a 4 de Março de 2005. Biblioteca, Museu, suite, réplica da Pedra de Dighton O complexo desta Associação é composto por um Museu - uma casa em pedra onde nasceu o emigrante valecambrense, mantendo as características e utensílios tradicionais da época; por uma suite contígua devidamente equipada para turismo rural; e uma Biblioteca dividida em dois andares, que contém todo o espólio do emigrante luso-americano. O médico português reside nos E.U.A. há mais de meio século e, acompanhado pela sua mulher Sílvia Jorge da Silva, investiga o papel dos portugueses na expansão global e tem feito relevantes descobertas, nomeadamente acerca da portugalidade de Cristóvão Colon, tema de um livro que até já foi adaptado para filme – uma produção do cineasta Manoel de Oliveira. Este cientista descobriu também uma rocha de 40 toneladas semi-submersa durante séculos, onde encontrou inscrições de colonos portugueses de há cinco séculos. Esta Pedra de Dighton está preservada, num Museu nos E.U.A., graças ao seu esforço, da qual mandou realizar uma réplica que se encontra no pátio-jardim desta mesma Biblioteca-Museu, em Cavião. Biblioteca com espólio vasto A Biblioteca-Museu Dr. Manuel Luciano da Silva é dedicada à Ciência Médica, Descobrimentos Portugueses, Historiadores Amadores e Emigrantes Portugueses. O vasto espólio que este emigrante quis doar a esta Associação teve sempre como objectivo, lembra Manuel Luciano: “dar informação ao povo de Cavião sobre matéria da agricultura, do milho, do vinho, dos animais domésticos, etc.; atrair os professores e estudantes de todo concelho para analisar as obras originais que nela existem, no que diz respeito ao Colombo Português, à descoberta da América do Norte pelos Corte Reais e examinar no local as inscrições da réplica Pedra de Dighton - deviam fazer viagens de estudo ao local; todos os profissionais de saúde do concelho deviam visitar a Biblioteca para saber o que lá existe sob ponto de vista médico para seu proveito, como por exemplo, mais de uma centena de programas em DVD da “Tribuna Médica”; os investigadores de Cartografia, porque a Biblioteca está completa neste capítulo; também os arqueólogos; e até os que se interessam pela Diáspora Portuguesa, porque a Biblioteca tem vários volumes sobre a vivência dos emigrantes nos Estados Unidos - esta Biblioteca é a primeira no país com o nome de um emigrante”. Que futuro? No entanto, alguns dos objectivos a que esta Associação se propôs não têm sido concretizados. Há nove anos que foi inaugurada e nunca recebeu qualquer visita, que não fosse de carácter particular, por referência deste emigrante, nem tão pouco qualquer divulgação a seu respeito. De acordo com Manuel Luciano, a Biblioteca contém um espólio que não existe no resto do país e, por isso, “há necessidade que toda a nação saiba deste facto”, ainda que este o divulgue na sua página de internet - www.dightonrock.com. Em nove anos não teve visitas Fomos conhecer esta Biblioteca-Museu e para o fazer, contactei Sofia Martins de Pinho, esposa de José Martins de Pinho, primeiro secretário desta Associação, já falecido. Foi com mágoa que Sofia Martins de Pinho mostrou um pouco da degradação daquela Biblioteca. O seu nome e contacto telefónico surgem na porta daquele edifício para eventuais visitas, mas admite que, nestes nove anos, foram poucas ou nenhumas aquelas que mostraram intenção em fazê-lo. “Sinto-me muito triste pela falta de divulgação e, principalmente por esta inevitável degradação, uma vez que não está aberta ao público. O meu marido tinha muito carinho por esta Associação e também doou alguns dos seus artigos escritos para pesquisa, mas faleceu sem a ver dinamizada". ![]() ‘Acordo’ com autarquia não foi avante Há muito que o emigrante valecambrense manifesta a sua apreensão pelo futuro desta Biblioteca-Museu. Há alguns anos foi intencionado uma espécie de acordo com a Câmara Municipal de Vale de Cambra, do qual, sublinha, “não obtivemos resultados nenhuns”. O objectivo seria que o espólio de que é detentora e o seu interesse para a comunidade em geral, se tornasse mais acessível a todos quantos pretendessem a sua consulta, explica. Solução passaria por ter um funcionário apenas 4 h por semana O facto é que esta Biblioteca se encontra encerrada há nove anos e lembra que, “o povo do nosso concelho não está a usar e apreciar o valor cultural e informativo da Biblioteca-Museu em Cavião”, bem como, “as autoridades responsáveis pela educação e cultura no concelho, que ainda não se entusiasmaram pelo valor do seu espólio”. A intenção passaria por “enviar um dos funcionários da Biblioteca ou Museu Municipais, apenas quatro horas por semana, para manter a Biblioteca aberta ao público”, explica. O objectivo declara, “era atrair o público em geral, a tornarem-se membros da Biblioteca – e porque se trata de uma organização não lucrativa privada - os diplomados poderiam até organizar, por sua iniciativa, projectos de investigação sobre várias matérias e até conseguir bolsas de estudo, porque a Biblioteca tem os dois diplomas aprovados pelo Conselho de Ministros para esses fins”. Autarquia diz nunca poder liderar esta Associação No entanto, a Câmara Municipal de Vale de Cambra afirma que esta Biblioteca nunca será liderada pela autarquia, uma vez que aquele tipo de infra-estrutura não encaixa na estrutura da rede da Biblioteca Municipal e que esta tem um espólio específico e em língua inglesa. Estas declarações foram, recentemente, proferidas pelo presidente da autarquia, numa Assembleia Municipal, que decorreu no dia 30 de Junho. Manuel Luciano refuta dizendo que “estas afirmações do presidente da Câmara revelam bem que ele desconhece totalmente a composição do espólio da Biblioteca de Cavião” e que, “até à data, ninguém da Câmara, nem dos serviços culturais de Vale de Cambra jamais visitou a Biblioteca de Cavião ou leu algum livro que lá existe. Isso é imperdoável. Durante mais de nove anos, não tiveram sequer a curiosidade de ver o que lá está, fazer o diagnóstico do valor informático daquela instituição” e ainda que, “não há dúvida nenhuma que o presidente da Câmara de Vale de Cambra, com a sua declaração tão negativa a respeito da Biblioteca de Cavião só demonstra estar muito atrasado e obstruir a oportunidade da juventude de Vale de Cambra em se desenvolver muito mais na cultura anglo-saxónica e ficar preparada para competir no mundo moderno, sabendo falar o inglês”. Manuel Luciano sublinha ainda que este está enganado quanto ao número de obras em português que existem naquela Biblioteca. Futuro passará por entregar ao Grupo de Cavião ou encerrar Hoje com 84 anos, o emigrante valecambrense receia que este cenário se perpetue e nunca seja dado o uso devido a esta Biblioteca, evocando que o seu futuro não depende mais de si. “Nós demos todo o nosso espólio ao povo de Cavião, à freguesia de Castelões e ao concelho de Vale de Cambra. Duas universidades americanas desejavam o nosso espólio, mas nós escolhemos enviá-lo para a terra onde eu nasci - Cavião, com muita despesa, com muito amor e dedicação”. Manuel Luciano da Silva diz mesmo que não voltará mais a Portugal, “enquanto a Biblioteca estiver fechada ao público”. ![]() O emigrante Valecambranse recorda ainda que o patrono desta Associação, Álvaro Pinho da Costa Leite, “pediu ao presidente da Câmara para que a autarquia abraçasse a Biblioteca de Cavião e a incluísse no conjunto das outras instituições culturais de Vale de Cambra”. No entanto, Manuel Luciano considera que “a autarquia menospreza totalmente a Biblioteca de Cavião, que é a obra-prima cultural que Álvaro Pinho da Costa Leite criou com tanto amor e gastando tanto dinheiro”. Na eventualidade de autarquia e directores actuais da Associação de Cavião não pretenderem abrir a Biblioteca ao público, pelo menos quatro horas por semana, a Biblioteca de Cavião será entregue ao Grupo Recreativo e Cultural de Cavião, “porque eles continuam a realizar, de uma forma positiva, muitas actividades sociais e culturais na freguesia de Castelões”. Mas alerta, se entre estas possibilidades não houver nenhuma solução, “não teremos outro remédio senão deixar a Biblioteca morrer”. Posição da autarquia é a de parceira e não de líder Em declarações acerca deste assunto para esta reportagem, o Presidente da Câmara de Vale de Cambra, José Bastos explica que, a autarquia nunca poderá “absorver” esta Associação, uma vez que, se assim fosse, também teria que o fazer com muitas outras, em situação semelhante, no concelho. “Cada Associação tem que ter vida própria e é isso que faz delas únicas. Estas devem auto-dinamizar-se e a Câmara estará sempre na retaguarda”, assegura. O edil lembra que a autarquia até é parceira desta Associação, mas não a pode liderar. “Terá que ser a própria Associação a criar incentivos, ofertas, para que os valecambrenses a queiram visitar” e até dá sugestões: “esta Associação podia criar uma variedade de ofertas para cativar os jovens a irem ao local, nomeadamente um cybercafé com acesso à Internet, onde também fosse possível conviver e, ao mesmo tempo, dar a conhecer o espólio da Biblioteca, através até de vídeos”. Associação terá que criar mais ofertas Segundo José Bastos, hoje em dia, as pessoas têm à sua disposição, “um conjunto de meios facilitados para obter a informação de que precisam, sem se deslocar, principalmente através da Internet” e, por isso, “não o fazem, sem terem outro tipo de estímulo que os leve ao local para pesquisar na Biblioteca”. Para além disso, o autarca refere ainda que, se trata de “uma biblioteca com livros muito específicos e em inglês”, o que, na sua opinião, “ainda torna as coisas mais difíceis, não podendo ser a autarquia, a obrigar as pessoas a consultar a mesma”. E porque é da “absorção” desta Associação que se trata e lhe tem sido solicitada há muito, o autarca volta a referir que, “não faz qualquer sentido”. No entanto, garante estar disponível para a apoiar em todos os projectos que se proponha elaborar. Esta colaboração foi já manifestada ao presidente da mesma Associação, em recente reunião, acerca do futuro da mesma, declara. Confrontado com o que foi feito pela autarquia, em termos de divulgação desta Biblioteca em Cavião – uma vez que foi verbalizado um acordo em que a Biblioteca Municipal ficaria com uma chave da mesma, no sentido de, aquando da solicitação de visita ao local, o pudessem fazer – mas, o edil admite que “nunca foi solicitada por ninguém esta visita”. Trazer espólio para Biblioteca Municipal José Bastos diz já ter mostrado, inclusive, a sua disponibilidade para “trazer o espólio que se encontra na Biblioteca de Cavião para a Biblioteca Municipal, no sentido de criar ali uma sala específica para o divulgar”. Esta solução, explica, não seria definitiva, ficando ali, até determinação da direcção desta Associação. O autarca, admite tratar-se de um “espólio de excelência” e que o lugar onde se situa a Biblioteca tem uma “envolvência muito agradável”, atribuindo até, “um louvor a Manuel Luciano da Silva, pela atitude de disponibilizar este espólio para a sua terra natal”. No entanto, este aconselha os membros desta Associação a “preservarem o local e a não a deixarem morrer”. ![]() ![]() ![]() Cristina Maria Santos in "A Voz de Cambra" *** (Nota do Editor: Manuel Luciano da Silva é colaborador da Free Zone, onde tem inúmeros artigos publicados) Coordenadas GPS da Biblioteca-Museu: (clique nas coordenadas ver o mapa no Google)
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