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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Reportagem | ||||
| Escrito por Maria José Peres | ||||
| Sábado, 05 Junho 2010 00:10 | ||||
![]() FEIRA DA LADRA “Encontro de destinos, desencontro de vozes, destino último de todas as vozes, voz por último conferida a cada destino” (*) Maria José Peres
Talvez nos bastasse ler o livro de Marina Tavares Dias sobre a Feira da Ladra, para ficarmos a saber quase tudo sobre o que torna tão característica esta feira, razão pela qual destacamos, em subtítulo (*), a definição da autora. Poderíamos também retomar texto escrito por Hermínio da Silva Monteiro que classifica a Feira da Ladra como “um tempo de sempre num espaço de agora”. Preferimos seguir a sugestão de Eduardo Coelho (fundador do Diário de Notícias) em crónica de 1903, descrita no livro já citado, que começa deste modo: “Meu Caro Leitor Eu sei que V.Exa. conhece bem a “Feira da Ladra”, que talvez lá tenha ido muitas vezes e mesmo adquirido n’esse “mistifório” de coisas velhas e desprezadas, à mistura com alguns objectos de pouco uso, qualquer artigo de interesse ou necessidade mais ou menos urgente. Pois muito bem, o leitor que já lá foi certamente se não incomoda em lá voltar e o que desconheça a “Feira da Ladra”, dar-nos-há o maior prazer com a sua companhia. Está disposto a ir lá passar algumas horas? Olhe que é sempre bom ver-se tudo, saber-se um pouco de tudo e... ouvir-se principalmente tudo.” Fialho de Almeida diz que “foi primeiro um mercado d’artigos de vestidura e comesaina. Vinham as mulheres dos montes, com pão de ló, requeijões e queijos frescos, as da Ribeira e Pelourinho Velho, com as suas bancas cobertas de manteus, onde vendiam pinhoada, gergelim, nogada, marmelada, tartes e refrescos... os passarinheiros vendiam pássaros, os cegos autos, versos... e quando em tempos de D. Manuel as conquistas começaram a despejar na cidade os primores da cultura colonial, a Feira da Ladra rivalizou em exibições tropicais com o melhor do Pateo das Capellas!... Mais os panos de Malines, e Ruão, Holanda, veludos de Flandres, brocados de França e de Veneza, que para tudo o luxo da Lisboa manuelina achava gosto e dava luzimento... no meio da rua... sapateiros, caldeireiros, remendões de fato usado e ferros velhos...” Surge nova deliberação que faz deslocar a Feira para o Campo de Santana, em 1823; embora uns meses mais tarde nova ordem de mudança... e a Feira instala-se na Praça da Alegria! Regressa ao Campo de Santana em 1835. Um dos mais conceituados cronistas de então sobre a vida lisboeta, Júlio Cézar Machado diz-nos o seguinte: ![]() “A Feira da Ladra é a última expressão das cousas sérias da vida. É o livro que consumiu em noites de trabalho a imaginação de um homem de talento, livro que andou em mãos de senhoras, que foi lido e decorado n’uma certa época em que foi da moda, que se emprestou a um conhecido que nunca mais o restituiu como costumam fazer os conhecidos a todos os livros que lhes são emprestados, que n’um dia de mau humor contra a lettra redonda, ou de ausencia de cobre para cigarros o vendeu em companhia de um chapeu velho a que deu água e escova, ultima droga com que estes Dulcamaras de trastes velhos, tentam por um supremo exforço da sciencia dos charlatães apparentar de assetinado e lustroso o chapeu ruço e falto de pello, que a todo o instante obriga o philosopho de ocasião, que não tem dinheiro para outro – a meditar quanto é devastadora e implacável a marcha incessante do tempo!” Finalmente, em 1882 – até aos dias de hoje - a Feira da Ladra permanece no Campo de Santa Clara e acontece semanalmente, aos Sábados. Fomos observá-la, em tempo e com olhar actual. De novo, quase que os acontecimentos de repetem embora com pequenas diferenças. As conquistas de hoje não permitem mais despejar ali “os primores da cultura colonial” mas connosco e na sequência de todos esses tempos ali “assentaram“ seus arraiais muitos africanos, brasileiros e outros, promovendo o seu artesanato, buscando a sua integração, procurando o seu pão por razões tão semelhantes às que levaram os portugueses a ocupar outros espaços com os quais “deram novos mundos ao mundo”. As bancas dos queijos frescos, do pão-de-ló e de outras iguarias foram substituídas por restaurantes... depois os sapatos usados exibem-se ao lado de serviços orientais e do nosso barro pintado à mão... Os veludos de Flandres já não comparecem porque os mercadores de hoje transaccionam as calças e blusões de ganga... “passarinheiros” também já não encontramos porque a sensibilidade para a protecção do animal e do ambiente assim o impõe mas encontramos o modo de pagamento através de multibanco! É Feira da Ladra a modernizar-se ainda que os filósofos de hoje argumentem que continua a vender-se na Feira da Ladra o esforço e as lágrimas de vidas consumidas de “um tempo de sempre no espaço de agora”! Concluímos que, ainda hoje, o que a Feira da Ladra contem pode estar associado à pobreza, mas reflecte uma extraordinária riqueza humana. Um espelho onde podemos ver que os tempos novos não trouxeram, a todos, melhores certezas. Continua a ser um evento muito popular, uma fonte inesgotável de objectos impensáveis. Um labirinto de coisas e vidas que continuamos a poder interpretar como se de leitura de um livro se tratasse. ![]()
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