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Última Actualização: Terça, 21 Fevereiro 2012 - 09:35 GMT+00
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| Escrito por Guilherme Pereira | |||
| Quarta, 26 Outubro 2011 19:00 | |||
![]() ![]() IGREJA E FORÇAS ARMADAS Guilherme Pereira
1 Igreja e monarquia A História do nosso país, para além da sua riqueza já quase milenar, comporta ensinamentos geralmente esquecidos ou ensombrados pelas chamadas ocorrências com maior visibilidade. Para além dos seus protagonistas, colectivos ou individuais, essa mesma História é, na sua parte de leão, a vida de algumas das suas instituições públicas ou privadas. Hoje proponho-me falar, com a simplicidade possível, das duas únicas instituições que efectivamente sempre funcionaram e funcionam independentemente dos regimes ou momentos históricos. Refiro-me à Igreja Católica e às Forças Armadas portuguesas, acerca das quais tentarei confinar-me a factos, ainda que o simples elenco desses factos nunca seja um procedimento isento ou imaculado. São conhecidas, pelo menos nas nossas três primeiras dinastias, ou mais acentuadamente nestas, clivagens e disputas palacianas entre o Poder monárquico e a Igreja, seja nas suas hierarquias nacionais, seja ao nível do próprio Vaticano. Estarão recordados do Papa português Pedro Julião, no qual ocorreu a terrível disputa entre o Poder e a Igreja sobre a criação, influência e até localização da nossa primeira universidade. O que, nesse já longínquo século XIII, era evidente, resume-se na circunstância de a Igreja ter sido de facto pioneira na instalação e funcionamento desse ensino de ponta e elite – mais tarde Estudos Gerais e Universidade – e o Poder andar aos papéis sem mexer uma palha e ter, sequer, tomado essa iniciativa. Formalmente, venceria o Rei D.Dinis. Na essência, já a Igreja tinha ganho essa batalha contra a ignorância. Suponho valer a pena recordar-vos o que então escrevi: “Um pouco por toda a Europa, com incidência mais notável em França (Paris, Bolonha, Montpellier, Toulouse) e Espanha (Salamanca e Palencia), fervilhava, pela mesma altura, uma fortíssima corrente intelectual ligada à Igreja e aos leigos. Alguns investigadores consideram que Portugal reagiu, por mimetismo ou necessidade de impor a sua cultura, ao que por lá se passava, de que terá decorrido a criação do Mosteiro de Alcobaça com uma escola de Gramática, Lógica e Teologia, frequentada por monges e ‘pessoas de fora’. A iniciativa foi do clarividente abade Estêvão Martins que, no documento fundador da escola, assinalou o facto de que ‘em todas as criaturas está posta uma luz natural de inteligência, pela qual se nos facilita o caminho de podermos chegar ao natural conhecimento do Criador, já deposta a escuridade da primeira ignorância’, acrescentando no mesmo texto este esclarecedor parágrafo: ‘Todos os homens, se pudesse ser comodamente, houveram de procurar com diligência o benefício da sabedoria.’” (fim de citação) Se repararem bem, as coisas não mudaram muito. Mesmo nos dias de hoje. Não é por acaso que, ainda hoje, uma das mais qualificadas instituições do nosso ensino superior é a Universidade Católica. 2 Uma respiração original O tempo de acção e reacção da Igreja nunca se compaginou com aquele que a cidadania mais azougada reclama. No topo da hierarquia, mas também alguns dos seus mais anónimos devotos, a Igreja sempre respirou o tempo que acha ser o seu tempo, dificilmente se deixando influenciar pela pressão mediática e muito menos pelos milhões de cidadãos chamados intelectuais que, mundo fora, a tentam condicionar, cercar ou empurrar. Estou de acordo com a suposta teimosia da Igreja? Não. Vezes sem conta levantei a voz mas, honestamente o afirmo, atirei a toalha ao ringue e desisti. O silêncio e a discrecção dos insondáveis corredores e gabinetes do Vaticano não são a espuma da instituição, mas a sua seiva, os seus pulmões, o sangue das veias e as batidas daquele coração gigantesco e silencioso. Subscrevo a nova versão do catecismo? Apenas em parte. As opções estratégicas e ideológicas sobre o preservativo, a pílula ou o aborto, assino-as por baixo? Não. Repudio-as sem contemplações, tal como muitos católicos. Acontece que a Igreja não é uma associação recreativa nem decide ao mais alto nível em assembleias gerais de ruído e balbúrdia. Sou amigo e admirador de vários prelados portugueses, tal como sou, por exemplo, do Bispo Manuel Martins ou de D. José Policarpo, com os quais converso sobre estes assuntos. Não resisto em publicar um excerto saboroso de carta enviada por D. José Policarpo ao já falecido cronista e ensaísta Eduardo Prado Coelho: “O diálogo entre pessoas com o nosso itinerário é possível, mesmo aceitando o princípio de que ‘os homens são feitos para se entenderem’?Claro que eu acho que sim, desde que aceitemos, à partida, que todo o diálogo é capacidade de escuta e ousadia de proposta, que é semente lançada à terra que poderá, ou não, germinar, que é humilde e progressivo, manifestação de respeito pelo outro e aceitação de um caminho a percorrer, de que só se conhece o início. Esta questão do diálogo foi dimensão importante na formação da minha geração de jovens católicos, que vivemos apaixonadamente o Concílio Vaticano II. Frente ao mundo contemporâneo a Igreja redescobria-se, não como poder, mas como enviada em missão, portadora de ‘um sentido’, num desejo de escuta e compreensão do homem contemporâneo, com quem partilhava as alegrias e as tristezas, as esperanças e as angústias de uma história comum”. (fim de transcrição) Estes e outros distintos membros da Igreja ouvem-me com infinita paciência, sabendo que não sou católico. É gente eloquente, esclarecida, atenta e tantas vezes visionária. Invariavelmente, as nossas tertúlias terminam com o sorriso firme e vivo de todos eles, sem uma palavra de acrimónia ou qualquer esgar de hostilidade. Por regra, contudo, nunca se demitem de enunciar as centenas de milhares de iniciativas humanitárias, cívicas, médicas, solidárias, caracterizadas pelo investimento e sacrifício de milhões de acólitos anónimos nas sete partidas do mundo. 3 Tropa e liberdade As Forças Armadas portuguesas, de que sou oficial com orgulho, são um caso parecido. Ao longo dos séculos, estiveram no momento certo ao lado da libertação e liberdade do nosso povo. Assim foi em 1143 (Tratado de Zamora, Fundação de Portugal com D. Afonso Henriques), 1383-1385 (revolução que culminaria no afastamento de Leonor Teles e do famigerado Conde Andeiro e vitória de Nuno Álvares Pereira – Batalha dos Atoleiros - contra a invasão espanhola, no Alentejo, em 6 de Abril de 1384), 1640 (restauração da independência pós invasão e ocupação dos castelhanos), 1910 (regicídio e instauração da República) ou 1974 (revolução do 25 de Abril) justamente quando se sentenciava que os militares sempre e só serviriam os poderosos e tiranos e com eles manteriam pactos objectivos e eternos de cumplicidade e subserviência. Enganou-se sempre a História que fazem alguns historiadores. Enganaram-se também os portugueses. O então chefe do governo Marcelo Caetano, pouco antes de ser escorraçado, a 14 de Abril de 1974 recebeu com pompa e circunstância o topo da hierarquia militar de então (conhecida pela “brigada do reumático”), que ao beija-mão lhe foi prestar vassalagem e obediência supostamente para sempre. E disse Marcelo: «O país está seguro de que conta com as suas Forças Armadas e em todos os escalões destas não poderão restar dúvidas acerca da atitude dos seus comandos». Poderão ver e ouvir na íntegra esse discurso em: http://www.25abril.org/index.php?debug=0&content=2&image=258&serie=3. Poucas semanas depois, Caetano estava preso e deportado pelas mesmas Forças Armadas que libertaram o país de um garrote com quase cinco décadas, os quais, militares, restauraram a liberdade e fizeram o glorioso 25 de Abril de 1974, de que ainda hoje a classe política, na sua generalidade, não consegue perceber patavina, justamente porque a instituição funcionou e agiu à revelia do Poder. 4 Conclusão Imagino que, por causa deste texto, me sairá na rifa o labéu de militarão asceta ou católico empedernido. Não vou dizer que estão enganados, pela razão cristalina de que me estou rigorosamente nas tintas. Tenho aprendido, com a Igreja e as Forças Armadas, a ser paciente e humilde e, já agora, a ignorar as trovas patéticas de um vento que nunca passa. Apesar dos tufões da ignorância mais larvar, do oportunismo ou da jactância pseudo-intelectual, esforço-me por pensar com esta cabecinha razoavelmente ignorante e velha.
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Portugal







“O diálogo entre pessoas com o nosso itinerário é possível, mesmo aceitando o princípio de que ‘os homens são feitos para se entenderem’?