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1 de Março de 2010Os 100 Artigos + lidos
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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Opinião | |||
| Escrito por Jorge Castro | |||
| Segunda, 06 Setembro 2010 20:30 | |||
![]() ![]() O mistério dos mistérios ou o descaso dos casos Jorge Castro Sobrevoámos em voo muito baixo, ao longo da última semana, mais dois extraordinários e misteriosos casos em que a sociedade portuguesa se tornou fecunda. Mais dois casos de aparência estrepitosa de onde ressalta depois, em grande primeiro plano que afinal tudo esconde, a sua impenetrável opacidade. Refiro, como é óbvio, os casos Casa Pia e Carlos Queirós. Casos que me permito «meter no mesmo saco» porque deles, eu cidadão, que me tenho na conta de algo atento e sempre interessado, apuro um denominador comum: não consigo concluir coisíssima nenhuma… Como nos casos de Camarate, ou dos hemofílicos infectados com SIDA, ou de Maddie, ou de Valle e Azevedo, ou do Freeport, ou do BPN, ou da Caixa, ou dos apitos, ou de…, ou de…, ou de… enfim, qualquer cidadão terá, em carteira do conhecimento, casos deste tipo de sobra, de maior ou menor impacto na sociedade, mas todos eles com essa peculiaridade que os irmana: a impossibilidade de se detectar cristalinamente onde foi parar a culpa e os culpados de cada uma das situações supostamente averiguadas e, uma vez por outra, até chegadas por fim a julgamento. Aliás, irei mais longe: não apenas não se vislumbra claro responsável em cada caso, como a responsabilidade surge, em geral, ela própria repartida por protagonistas aparentemente antagónicos e, desconcertantemente, até de aparentes interesses opostos. Isto quando a suspeita da culpa não fica a pairar sobre as próprias alegadas vítimas, numa pirueta onde todas as personagens – dos arguidos aos queixosos – acabam por se posicionar a um mesmo nível no que ao «julgamento popular» interessa. Melhor será, talvez, chamar-lhe opinião pública, a qual acaba por se definir e ganhar alento em juízos opinativos mais próximos da discussão de tasca, entre uns copinhos de três, do que nas capacidades e critérios do cidadão conscientemente informado, vivendo num estado de direito. A trapalhice sistemática, quando não a sacanagem, que se patenteia (e que, pela frequência, chega a parecer deliberada…) em cada processo instaurado, os constantes erros grosseiros disto ou daquilo, a incontornável deriva processual e a morosidade subsequente, sempre a viciarem investigações e a credibilidade das mesmas, transforma todo este panorama num pantanal imenso, mal cheiroso e pior frequentado, que não pode deixar de minar a confiança que o cidadão comum deve depositar no estado republicano, laico e democrático em que é suposto vivermos, no e para o qual pagamos os nossos impostos, a bem da nação, entendida esta como o colectivo que a sua população representa. Quando num processo repugnante como o da Casa Pia, independentemente das penas que incidam sobre quem se serviu sexualmente dos menores, se deixam passar incólumes todos os responsáveis de topo que, reiteradamente durante anos a fio, na nobre Instituição que a Casa Pia é, terão permitido, na mais absoluta impunidade, o tráfego (e o tráfico, também) das comprovadas vítimas, parece-me estar tudo dito…Não nos iludamos com a evidência gritante de que nada daquilo poderia ter ocorrido sem que todo e cada um dos escaninhos da Instituição viesse a ter, em algum momento, conhecimento de tal. Ou arrebanha-se uma mão-cheia de miúdos, metem-se dentro de uma carrinha de serviço, em passeio de umas centenas de quilómetros, uma e outra vez até ao infinito, sem que ninguém dê por isso? Que mais não fosse para justificar o gasóleo consumido… já para não se falar de outras minudências mais ou menos óbvias. Um Carlos Silvino, no desempenho das suas funções na Instituição, viola – isto parece que ficou mais ou menos provado, não sei bem… - centenas (?) de crianças, como ele próprio já fora violado e ninguém dá por nada? Mas de que tugúrio de seita demoníaca ou antro de terrores medieval é que se está a falar? Em que células de que clausura é que estas cenas tiveram lugar? Mas não! Estamos a falar de uma Instituição respeitável, de profunda interferência estatal, aberta à sociedade e com acção sobre ela, responsável por uma obra social meritória, da qual emergiram, ao longo dos anos, centenas ou milhares de nomes de alta craveira da nossa sociedade, nas mais diversas áreas. Nomes que, eles também afinal, acabam salpicados por esta maré de ignomínia que mancha a Instituição. Ou devemos colher ensinamento de que desta «parte da verdade» não interessa apuramento, porque os seus responsáveis ainda estão muito vivos e activos e poderão suscitar-se situações de especial melindre nacional? Não o quero crer mas, se assim é, lá ficamos, de novo, imersos num mar de dúvidas e suspeições que inquina, irremediavelmente, a confiança do cidadão nas instituições que deveriam ser os pilares do tal estado republicano, laico e democrático. Punem-se os abusadores das crianças? Muito bem. E de quem lhas meteu nas mãos, não interessa saber? É que, mutatis mutandis, não se combate, pela mesma ordem de razões e como é sabido, o «fenómeno» da droga através da mera e exclusiva penalização dos seus consumidores. Ou não será assim…? ![]()
E assim se mantém um treinador da selecção nacional que não o pratica porque está suspenso, se afirma, ao mais alto (?) nível, que a selecção pode funcionar em «piloto automático» e se aguarda que se faça jurisprudência em Portugal ao julgar o mesmo caso em instâncias paralelas, com desfechos diversos. Um mês de suspensão é pouco! Toma lá mais cinco, que nós cá achamos que assim é que está bem! ![]() Deste modo, seja qual for o nosso desidério de utopia social, não vamos lá… E, se me permitem alguma liberdade peripoética, o que vemos escorrer na sarjeta, não sendo lágrimas de injustiçados, nem sangue de mártires, deverá ser tão só a escorrência pestilenta dos interesses obscuros e clandestinos que mantêm a sua urdidura sobre tudo e sobre todos, impedindo aos portugueses um verdadeiro e profundo alento de liberdade, a cem anos já da implantação da República – que, como se sabe, é termo que provém de «res publica», a coisa pública. Perante todo o negativismo do que fica opinado, onde poderá residir uma réstia de esperança? Não sei e creio bem ser estultice pretender encontrar alguma fórmula mágica que não passe por profundas convulsões sociais, quiçá geradoras de novos paradigmas. Mas posso deixar um conselho, em jeito de atitude de vida: como dizia Newton, se não erro muito, «mesmo que saiba que o mundo vai acabar amanhã, ainda assim plantarei uma macieira». É isso, dedique-se cada um de nós à agricultura possível.
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Portugal







Quando num processo repugnante como o da Casa Pia, independentemente das penas que incidam sobre quem se serviu sexualmente dos menores, se deixam passar incólumes todos os responsáveis de topo que, reiteradamente durante anos a fio, na nobre Instituição que a Casa Pia é, terão permitido, na mais absoluta impunidade, o tráfego (e o tráfico, também) das comprovadas vítimas, parece-me estar tudo dito…

