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Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Opinião | |||
| Escrito por Jorge Castro | |||
| Quarta, 25 Agosto 2010 14:50 | |||
![]() Demagogia pura e dura, com alguma publicidade e ponderação reflexiva à mistura… Jorge Castro Se um político de topo, no legítimo exercício das suas nobres funções, tem – mas tem mesmo, não apenas por alegada «dignidade das funções» - necessidade imperiosa de uma viatura para o cabal desempenho da sua nobre função, viatura essa que o dinheiro do Estado, isto é, o dinheiro do contribuinte vai ter de adquirir para o legítimo e nobre efeito, uma de duas: - ou adquire um Audi, um Mercedes, um BMW ou um Jaguar – que são as marcas geralmente seleccionadas – cujos preços, para as gamas intermédias-altas que são geralmente as seleccionadas, oscilam (e, repito, não se falando nos topos das gamas) entre os € 100.000 e os € 170.000 por unidade; - ou adquire um Renault, um Nissan, um Ford ou um Fiat, também com ar condicionado, airbags, volante, quatro rodas, além da sobresselente, suspensão, retrovisores, rádio, com os leitores todos e gps e assentos e tudo e que até chegam aos 200 Km/hora, a que eles nem podem circular, aí por preços que oscilam entre os € 20.000 e os € 40.000, pela mesma unidade. Se adicionarmos a isto as respectivas e proporcionais manutenções, revisões, consumos, lavagens, reparações, etc., o fosso da disparidade… dispara, mesmo. Agora, se um político de topo, no legítimo exercício das suas nobres funções, carece de ir de Lisboa ao Porto na sua viatura – o que não faz, habitualmente, pois utiliza o avião, com encargos em acumulação com os atrás referidos –, mas se o fizer, enfim, a viagem repimpado num Renault, ou Nissan, ou Ford ou Fiat dos referidos, em vez de se deslocar num Audi, ou Mercedes, ou BMW, ou Jaguar dos também referidos, não o fará chegar lá nas mesmíssimas duas horas e meia e gozando da boa saúde? Mais discreto. Mais comedido. Mais exemplo a seguir. Mais político, até! Proponho-vos, de seguida, outro exercício reflexivo: podem imaginar, na pirâmide portuguesa instituída e institucional, a quantidade de assessores, secretários, directores, sub-directores e outros senhores que desfrutam, na res publica – mas, com a mesma «lógica», na privada – da quantidade fabulosa, imensa, abstrusa, alarve, descontrolada e incontrolável de viaturas do primeiro exemplo, em detrimento das do segundo? Tentem apurar, façam contas e chorem. E, já agora, entre um Audi e um Nissan colhidos dos dois exemplos acima, por exemplo, o dinheiro sobrante multiplicado pela incontável frota que por aí circula, permitiria quantas grandes cirurgias, quantas pequenas, quantos novos equipamentos escolares, quantos apoios substantivos e pontuais a pequenas ou micro empresas em aflição, quantos dentes tratados pelo Serviço Nacional de Saúde, quantas bolsas escolares, quantos equipamentos de investigação científica, quantas escolas não teriam de ser encerradas, quantas intervenções em prol do património edificado, quantas orquestras, quantos grupos de teatro, quanta aquisição de viaturas de serviço condignas para a PSP e GNR e Judiciária, quanto apoio a infâncias desvalidas, quantas esferográficas Bic nos serviços onde elas já não existem por alegada falta de verba … Quanto e quantas…? Não serão, seguramente, os «peanuts» que alguns economistas apregoam. Tudo para que um político ou outro dirigente de topo de qualquer coisa ou coisinha possa desfrutar do cu-tremido, como a minha avozinha diria, em viatura topo de gama? Será que o tremido dele, por imperativos que me transcendem, é mais sensível do que o meu, ou do que o seu, caro leitor, que pagamos os impostos ao Estado que lhe está a sustentar a especiosa tremideira? Arrogam-se, então, esses senhores a tais «direitos», a que título? E com o aval de quem? E já nem se discute a utilização para fins desvairados, como compras da madame ou transporte dos filhos aos colégios particulares, ou… Cabem nesta minha pequena angústia, também, todos aqueles que dispõem de viatura de mão-beijada porque os portentosos vencimentos que auferem não parecem bastantes para adquirirem eles próprios e a expensas suas os respectivos carrinhos e vêem-se sujeitos ao pagamento em géneros. Ao contrário do comum cidadão que lá vai ganhando, melhor, pior ou nada, o pão de cada dia e com isso paga o seu conforto, ou vício, ou o que muito bem lhe aprouver… quando não se afoga em dívidas ao banco, porque caiu na ratoeira de se dar a ares para os quais não tem posses. Quando se apregoa a necessidade imperiosa de mudança de paradigmas, que a todos terá de influenciar, parece-me ser esta uma óptima altura para corrigir estes desmandos de vaidade vã e vil, ainda para mais cultivados à conta do erário público. Claro que, em inúmeros casos, sei e acredito que os beneficiários destas prebendas não serão perdidos nem achados neste jogo de vaidades. Usufruem, apenas, de regras que estão criadas e que lhes são atribuídas por «inerência de funções». Mas é aí que bate o ponto: as «regras» criadas. Se vale e parece ser consensual alterar paradigmas para quem ganha 10, muito mais se estima que valha alterá-los para quem usufrui de 10.000. Até lá, estão a ver porque é que eu experimento muito séria dificuldade em engolir essas tretas impingidas da «economia de mercado»… bem como da apregoada seriedade da grande generalidade da classe política, dirigente e de seus apaniguados? Pós-escrito – E, já agora, se saísse uma leizinha – mais uma, que diabo, entre tantas talvez até nem se notasse… - que obrigasse a ter aposto, em cada viatura de todas as acima referidas, de modo bem legível e destacado, a bem da transparência e apesar dessa fórmula airosa da «viatura para uso particular», a indicação clara da entidade estatal ou patronal, ou fosse lá o que fosse que adquirira, de facto, a viatura… Vale uma aposta em como se iria registar uma significativa poupança, pelo menos, no combustível? É que quando a senhora dona Fulana (ou o seu motorista) aparecesse junto ao colégio dos infantes com a reluzente viatura do ministério X – de quem não está ali para enganar ninguém –, estaríamos certos de uma de duas coisas: ou existia ali muito orgulho na Pátria e no serviço pessoal a ela prestado – o que é supinamente louvável –, ou não existia mesmo vergonha nenhuma. Ocorre-me, também, que estas atitudes, no tempo da «outra senhora», eram dados adquiridos, ainda que o povo lhes ferrasse as canelas, à socapa. E agora? *** ARTIGO RELACIONADO:
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