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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Opinião | |||
| Escrito por Jorge Castro | |||
| Segunda, 02 Agosto 2010 23:50 | |||
![]() ![]() No plano inclinado em que todos vamos… Jorge Castro ![]()
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Tenho gostado de ouvir o falar desassombrado de Medina Carreira quanto ao estado da nação. Ouvi, voltei a ouvir e vou ouvindo. Considerei importante a sua inquietante maledicência quando Sócrates, de maioria absoluta em riste, se arvorava em Rei-Sol e empurrava o País alegremente para o abismo ultra-neoliberal. Uma voz contrária teve o maior cabimento e utilidade. Mas começa a cansar-me este assumir-se agora como profeta oficial da desgraça, com alguns tiques, até, de intolerância que a exposição no Plano Inclinado nos vem denunciando. Isto, claro, sendo não mais que a minha pobre opinião. Conheço pior o João Duque mas, se me agrada o seu ar circunspecto, contido e, aparentemente, sabedor, assim a modos que um Steve McQueen da Economia, irrita-me um pouco também a sua tendência para criar e nos conduzir a becos, quando andamos tão precisados de avenidas. Carvalho da Silva – colhendo a minha reticência por dirigir uma organização sindical da qual não aprovo, liminarmente, os métodos de luta, no terreno real e concreto –, tem, por outro lado, vindo a assumir uma posição, no enquadramento nacional, que transcende em muito esse mero lugar de dirigente sindical e vem estabelecendo, de forma clara e categórica, pelo menos em termos de declaração de intenções e princípios, qual o seu lado da barricada, qual a filosofia que o sustenta, quais os caminhos que nos propõe. É, pois, neste enquadramento de preconceitos assumidos que regresso ao primeiro parágrafo deste meu artigo. Em boa verdade, algo urge mudar – ou talvez, não – neste País, em termos da atitude política. Mudar de atitude para que tudo mude. Ou talvez não, para que tudo se vá, progressivamente, afundando neste lodaçal de não-país em que vegetamos. Algo de aparentemente desconexo me ocorre, ouvindo as personagens acima: a formação progressiva e constante da força de trabalho nacional é uma premência. Por causa da competitividade, dos chineses, dos alemães e do Diabo a quatro! Tudo está de acordo com esta premissa. No entanto, vejam bem a falta que nos fazem, por exemplo, os cantoneiros, nas nossas estradas… E um cantoneiro, para o ser, terá de ter um curso superior de engenharia ou de agronomia, ainda que com Bolonha de cernelha? E, depois, quem será o maduro que, com licenciatura no bolso, se calhar já com um mestrado ou pós-graduação, obtida enquanto o mercado de trabalho está em estado comatoso e os pais vão inventando dinheiro para gastos, se dispõe a ir trabalhar na berma das estradas, ao Sol e à poeira, a troco de um salário mínimo? Mal por mal, vai para um supermercado, que sempre é trabalho mais limpo… Diz-se do cantoneiro o que poderá dizer-se do jardineiro, do trabalhador rural, do pedreiro, do calceteiro… enfim, de todos aqueles até onde o conhecimento da vida nos leve. A cínica e hipócrita política dos salários baixos – e para quem tenha dúvidas, compare Portugal com todos os países europeus neste domínio, exclusão feita aos salários do «pessoal dirigente» – trouxe-nos a este beco sem saída em que os economistas da treta advogam o abaixamento ainda maior de salários (!) para sairmos da crise, enquanto os trabalhadores por conta de outrem reivindicam, por razões óbvias de subsistência, aumentos salariais que lhes permitam fazer face ao elementar pão do dia-a-dia. No meio… não fica nada. Aparece um Sócrates a aumentar impostos, à mínima inquietação existencial, como se não houvesse amanhã, ou (mais recentemente) um Passos Coelho, ainda proto-governante, com angústias para «flexibilizar» ainda mais o mercado do trabalho, como se este não estivesse já completamente desregulado, flexibilizado e, na verdade, face à inoperância dos mecanismos do Estado, completamente abandalhado. Falemos claro (que é o que todos gostam de dizer, falando escuro): pretende-se o quê? Criar uma sociedade à imagem e semelhança da actual chinesa, com índices de produtividade sustentados na mais despudorada escravatura laboral, como paradigma de salvação de crises actuais e futuras, a bem dos grandes interesses da «alta» finança? Que raio de futuro nos esperará… Ainda que as convulsões sociais que vão ocorrendo na China, com a emergência de uma classe média cada vez mais numerosa e reivindicativa, não sejam de molde a tranquilizar espíritos capitalistas selvagens e muito ocidentais, valham-lhes os deuses e o rigor da verdade. Quarenta e tal mil greves, só no ano passado, é obra. Para mais num país onde os sindicatos estão fortemente espartilhados por um estado centralizador e controleiro. Enfim, Medina Carreira entope o seu discurso quando chega, se chega, ao momento de falar de retribuições do trabalho. João Duque assume, aí chegado, que o calado é o melhor… No meio disto receei que o Carvalho da Silva sucumbisse a alguma apoplexia, tal a dimensão disparatada e aflita das contradições oratórias dos seus oponentes. Houve um mérito: alguma diversidade de opiniões, de que os nossos ouvidos e espíritos andam tão carenciados e arredios. Depois, ele há ídolos com pés de barro, como sempre… ![]()
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