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1 de Março de 2010Os 100 Artigos + lidos
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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Opinião | |||
| Escrito por Jorge Castro | |||
| Quinta, 08 Julho 2010 15:10 | |||
![]() Um País de azulejos portageiros… Jorge Castro É preciso é cobrar, vilanagem !... A partir de 1 de Julho de 2010 os nossos excelsos governantes puseram-nos a todos a pagar mais de IVA e a receber menos por força de maior desconto no IRS. Contra tudo, contra todos e contra todos as lógicas que elementar bom senso ditaria. Os nossos governantes são assim: quando não sabem muito bem o que hão-de fazer perante algum buraco nos cofres do estado, fazem qualquer coisinha expedita para colmatar tais abismos. E essa coisinha, invariavelmente, incide sobre os mesmos, uma espécie de bestas de carga que, neste País, lhes abonam os desmandos e que sói denominar-se, pelos gurus da Economia e outros expertos, como classe média. Fórmula abrangente, que vai do caixa de supermercado a recibo verde (embora licenciado, pós-graduado e mestrado), auferindo escassos trezentos euros mensais, a título precário e desonesto, até ao quadro topo de gama de grande empresa, cujo vencimento, fora outros aconchegos securitários, atira sempre para as dezenas de milhares (quando não centenas) de euros no mesmo espaço temporal… Sobrevoando estas disparidades, ponderação e equanimidade são termos que, como regra geral, não são contemplados pelos dicionários baratos e limitados que os governantes têm disponíveis para a arte – que se julga nobre – da governação. Menos, ainda, quando se tenta entrar no universo iniciático das instituições bancárias. ![]() Caso sublime, superior e paradigmático de tal navegação sem leme nem vela é, aliás, a «política das SCUT». É preciso é cobrar, vilanagem. Por cima, de lado ou por baixo, a torto ou a direito, à direita ou à esquerda, mas cobrar, sempre cobrar. A propósito, não consigo imaginar como é que nuestros hermanos, aqui mesmo ao lado, têm uma rede viária tão melhor, mais bem tratada e mais racional do que a nossa e a custo zero para os utilizadores… Mas isso, venha o Diabo e entenda. Mas os nossos governantes cobram sem juízo nenhum, sem critérios, sem objectividade alguma, sem as tais ponderação e equanimidade de que acima se fala… E, de súbito em desespero negocial – valha-nos, ainda, o não terem maioria parlamentar… –, damos pela proposta oportunamente abandonada, diga-se, de estipular que quarenta e seis concelhos, ou regiões, ou seja lá o que lhes passa pelo bestunto, passam a ter estatuto de pobrezinhos e vai de lhes conceder isenção de portagens nas SCUT, até como se todos os munícipes de determinado concelho fossem iguais em teres e haveres. Promove-se então a existência de concidadãos com ferretes diversificados: o de Misarela diverso do de Fornos de Algodres, o de Alguidares de Baixo diverso do de Dafundo, e por aí fora… Um que paga menos nas SCUT, outro que paga menos na água, outro, na electricidade, outro, ainda, no pão, aquele mais no vinho, num cacharolete de imbecilidades que vai requerer, de cada um de nós, um mapa de regiões cheio de retalhos para tentar apurar quem são os portugueses de primeira, os de segunda, os de terceira e por aí adiante. Estou a ver o meu merceeiro a perguntar a algum estranho que lhe entre portas adentro: «- Atão e o senhor vai pagar-me as batatas a quanto? Ora mostre-me lá o seu cartãozinho de cidadão, para eu poder apurar a factura, fach’avor…». Claro que os preceitos constitucionais de tratamento equânime não são para aqui chamados nem vêm a propósito, na óptica das cáfilas mandantes. E assim se desmoraliza a nação e se subverte, com despudor e arrogância, o estado de direito. E o exemplo vindo de cima faz escola, como todos sabemos… Tudo por causa das vacas magras. Malditos animais que já nos transtornam a paciência vai para cima de cinquenta anos – isto tanto quanto eu possa testemunhar! Mas onde param as gordas? As ruminantes, primas das outras? Essas garganeiras, fellinianas, que só aparecem nas pós-análises dos economistas e, geralmente, cinco a dez anos depois de já cá terem estado, ainda que ninguém – vá lá, quase ninguém… - tivesse dado por elas. Não me lembro de alguma vez ter ouvido, da boca de um político no poder, que o tempo era de vacas gordas – mesmo quando o era. Alguém ouviu…? No entanto, cada vez os ricos são mais e mais ricos, tal como os pobres são mais e mais pobres, fenómeno de quase-gaguez matemática que – esse sim –, passa, sistemática e aleivosamente, ao lado dos ditos gurus das análises económico-financeiro-sócio-políticas. Presumirão alguns que um mundo de condomínios fechados é o refrigério das perturbações sociais e seu corolário «lógico» que os desequilíbrios sociais gerados inevitavelmente ocasionarão. Com muros cada vez mais altos, mais securitários, mais vigiados, contra as hordas da populaça esfomeada que os cercará no exterior… Pois, mas isto é um cenário que parece mais próprio de obscuros tempos feudais. Entretanto, se tiver de ser, talvez então seja chegada a hora, contra estas insanas arbitrariedades, de reabilitar a transcendência dessa arma popular que era a funda. Munições não faltarão – está aí a calçada portuguesa à mãozinha de semear e, de tão maltratada, solta e escavacada.
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