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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 10:00 GMT+00
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| Escrito por Magalhães dos Santos | |||
| Quarta, 29 Setembro 2010 08:50 | |||
![]() ![]() DESISTIR? ABDICAR? Magalhães dos Santos Um novo-rico, não demasiadamente novo mas abundantemente rico, resolveu, para preencher os seus nobres ócios, aprender uma língua estrangeira. Claro que, como puro novo-rico, não escolheu castelhano nem inglês nem francês nem alemão nem italiano. Essas são para o vulgo pobretão e reles. Ele era diferente, a sua conta era muito maior!... E decidiu-se pelo húngaro, língua de cuja existência, na sua roda de intelectuais, ninguém fazia a menor ideia. Na embaixada lá lhe indicaram a pessoa indicada para o iniciar na aprendizagem desse idioma (que nem sequer é da família das línguas indo-europeias). Começaram as aulas mas, ao fim da terceira ou quarta lição, deu-lhe, ao novo-rico, para refletir: - Se eu não sei uma única palavra de húngaro… como é que posso saber se ele me está a ensinar húngaro? A que propósito vem esta educativa historieta? A propósito das minhas dificuldades-incapacidades perante a política, autárquica, nacional, nacional, internacional, mundial. Que é que percebo de urbanismo? De assistência social? De trânsito, urbano ou inter-cidades? De Cultura, de Desporto… Seja lá do que for? ![]() E de Finanças, locais, nacionais, internacionais? De Banca? De “spreads”, de juros de empréstimos? Desses palavrões, que frequentemente e prudentemente continuam a dizer-se em linguagem suficientemente incompreensível para que o Zé, como eu, não entenda e coma o que lhe põem na frente? Se não percebo nada desses assuntos – que a todos nós dizem respeito, mesmo que se trate da China e do Japão e Ilha Formosa (Taiwan) – posso ter opinião? Posso dizer o que penso, se não estou habilitado, se não tenho conhecimentos? Terei de comer e calar? Não posso dizer – porque não tenho “bases”… - que este governo é mau? Que há trinta e tal anos Portugal é mal governado? Que a generalidade, a imensa maioria da nossa gente não está feliz, que está infeliz, sem esperança, desgraçada? Como posso eu atrever-me a tecer considerações de tal ordem, se não tenho conhecimentos técnicos; se nunca me fizeram a cabeça; se nunca pertenci a nenhuma juventude partidária; se não faço parte de nenhum aparelho partidário; se não tenho a mínima apetência por chorudos cargos políticos? Se não leio o Expresso nem as páginas especializadas do Público nem do Diário de Notícias? Se passo pelas primeiras páginas dos diários económicos e de negócios como gato sobre brasas? Devo remeter-me, bovinamente, ao silêncio? Ver a vida correr – ou não correr – à minha volta, ao meu lado e, passivamente, calar-me? Nem concordar nem discordar? Pensar (assim se pensava e se fazia pensar quando a minha geração começou a respirar e, depois, a reproduzir-se) que quem manda – manda bem? Devo voltar a pensar que “se soubesses o que custa mandar preferirias obedecer toda a vida?”... Ou, para poder ter minimamente uma ideia, uma opinião a respeito do modo como há trinta e tal anos somos mal governados, deverei recorrer aos ensinamentos dos Evangelhos? Ao de S. Mateus, por exemplo: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons”. Podem-se ler estas afirmações no Evangelho de S. Mateus, capítulo 7º, parágrafos 15-18. (Não deixem de ler o parágrafo 19º…) Que lhes parece, Leitores? Que frutos temos colhido destas árvores? Melhor – ou ainda pior –, neste terreno… que árvores estão plantadas? Plátanos? Eucaliptos? Ciprestes? Pelos seus frutos – que opinião podemos formar a respeito das árvores que os dão? A que caseiros entregámos a nossa quinta, o nosso pomar? Sou um ignorante, um não-preparado, um marginal da politiquice. Posso manifestar o meu nojo? A minha inconformidade? A minha imensa revolta? Ninguém, principalmente nas altas esferas, vai ouvir estes desanimados murmúrios. Mas sempre desabafo.
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