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1 de Março de 2010Os 100 Artigos + lidos
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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 10:00 GMT+00
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| Escrito por Jorge Castro | |||
| Domingo, 26 Setembro 2010 06:30 | |||
![]() ![]() Esta é uma crónica moralista e algo conformada… Jorge Castro
Utilizo diariamente a rede viária da grande Lisboa e já levo umas dezenas largas de anos nesta actividade intensa e culturalmente impressiva e daí que me arrogue o direito de poder afirmar, de cátedra, que para aí cerca de noventa por cento da população que se faz transportar no seu carrinho faz questão de não assinalar qualquer alteração de sentido ou interrupção da sua marcha. E porquê? Ora, porque sim! Aliás, qualquer cidadão dado a estas observações, que se pespegue em qualquer rotunda ou esquina da vida mais concorrida de qualquer urbe – desde que não haja viatura da Brigada de Trânsito ou singelo agente à vista –, em quaisquer dez ou quinze minutos ficará municiado com tal transcendente conhecimento. Vá lá que os carrinhos ainda dispõem de automatismos nos chamados «stops» porque, se tal automatismo não existisse, estou em crer que nem com esse alerta se poderia contar como acto de vontade e solidariedade por parte do bom cidadão português para com o seu semelhante. E acho estranho e curioso, assim em jeitos de um reflexo social digno de estudo sócio-antropo-psicológico ou quejando, pelo que esta atitude encerra de menosprezo (para não dizer, liminarmente, desprezo) por si próprio e pelos outros, atitude essa que é composta, ainda, em partes iguais, por aquela espertalhice portuga, que consiste em se levar boa parte da vida a tentar passar a perna ao parceiro. ![]() Para tal, nada como uma manobra intempestiva, nos limites da circulação e da desgraça, «papando» todos os otários que se vão empastelando em intermináveis filas, para se provar ao próprio ego e ao mundo que viemos de outra estirpe, onde o hábil jogo de cintura, a alegada pressa permanente e o total desrespeito pelo concidadão parecem constituir já parte integrante do nosso ADN. Claro que, como em todas as coisas desta vida, estaremos em presença de um fenómeno social, com as suas géneses e as suas lógicas, mas alicerçadas neste permanente estado de inconsciente regabofe que nos é tão querido e, esse sim, parece ser-nos atávico. Fenómeno que é alimentado, em cada dia – ganhando assim cada vez maior consistência – pela atitude displicente ou, até, negligente com que todas as cadeias hierárquicas institucionais a quem competiria regular a atitude do cidadão assumem neste processo. Ou clarificando: quantas multas serão passadas, por ano, pelo não cumprimento desse imperativo do Código de Estrada? Mas, por outro lado, quantos acidentes se evitariam se, em momento crucial do dia, um pisca-pisca nos alertasse para o facto de que ali o nosso parceiro da frente está a pensar em virar à direita ou à esquerda – que, aqui, as inclinações políticas serão irrelevantes… E esse aviso, logo secundado pelo nosso, sem o qual não faríamos o desvio de circulação intempestivo, colidindo com o vizinho do lado, que ia calmamente na faixa à nossa esquerda, tal como o abalroamento por parte do outro vizinho da retaguarda que, de súbito, se vê sem escapatória para prosseguir viagem. Exagero? Basta dar umas voltinhas diárias por essa inefável A5 para se confirmar a justeza do descrito… e a sua alucinada frequência diária. Mas isto interessa a quem? Afinal, o caramelo que não fez o pisca até já lá vai, de vento em popa, não tendo sido envolvido na cegada. Aliás, estas coisas só acontecem, mesmo, aos outros. A nós, nunca. Por isso é que a malta nem liga. O que nisto tudo se me depara mais preocupante é a metáfora que tal atitude representa em relação, por exemplo, a quem, por obra e graça do voto do povo, nos calha em sortes para governar (?) este País. De facto, em cada uma das constantes e reiteradas alterações de rumo e rota de TODOS e cada um dos nossos bem-queridos governantes – sem excepção nenhuma – de há tão longa data a esta parte que se me varre da memória onde tal fenómeno se terá iniciado, ainda que em avassalador crescendo, ninguém assinala adequadamente a sua marcha, como mandam os regulamentos. Também nenhum respeita as filas (ou bichas) do trânsito dos cidadãos os quais, deixados para trás no amontoado da confusão gerada, até se esquecem de lhes tirar a matrícula, promovendo a impunidade e incentivando a espertalhice. E eles lá vão, estrada afora, em direcção aos amanhãs que cantam, ainda por cima montados nos carrinhos que o povo lhes pagou e vai pagando – invariavelmente em popós topos de gama. Na verdade, piscas para quê? Interessa é seguir em frente e chegar primeiro… E, pelos vistos, a única coisa de que o povão se queixa, neste salsifré de oportunistas e «distraídos», é não ser e fazer como eles, pois na primeira oportunidade de trânsito, deixa-os entrar à má-fila, sem protestar sequer ou lhes remeter merecida buzinadela, bem como na primeira oportunidade para votar lhes dá, uma outra vez, o cheque em branco do voto. Talvez por isso se use o dito de que cada povo tem os governantes que merece (ainda que a mim me custe engolir esta). E nós vamos tendo estes, alternadeiros do poder, em cada dia verdadeiros cataventos de decisões. E daqui vem a nefasta consequência, seguindo os exemplos de cima: na primeira oportunidade, havemos de ser nós a «papar» os palermas que se mantêm, cordeiramente, na imensíssima fila… Eu seja ceguinho, surdo e mudo!
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