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1 de Março de 2010Os 100 Artigos + lidos
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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Escrito por Ana Souto de Matos | |||
![]() PÃO COM ALMA… Ana Souto de Matos Pão… cheiroso e crepitante, a sair fresquinho do forno e a exalar um tentador e inconfundível aroma a quente - que o pão tem destes contrasensos quando ao despique com a língua materna! Pão, a fazer recordar a infância… as correrias pelos bosques e o apetite voraz para o lanche, numa antecipação – sem margens para dúvidas - de uma fatia bem gorda ou de um bico branquinho, sempre bem fartos de manteiga, às vezes, até, com uma pitada de açúcar de permeio. O Pão, alimento fundamental da nossa dieta mediterrânica, na nossa gastronomia tradicional… seja simples, com manteiga, com queijo ou fiambre ou ambas as coisas, ou, ainda, à moda do campo, com azeite. Pão torrado ou frito, em sopas de leite, confeccionado em açorda ou em migas… O Pão de outrora, aproveitado até à última migalha, nem que fosse pelas galinhas ou pelos coelhos, na vida árdua dos campos. O Pão de hoje, em pastelarias que o oferecem “sempre quente” ou em boutiques gourmet que nos possibilitam tamanha variedade de farinhas, grãos e sementes, que nos confundem os sentidos e a escolha. ![]() O Pão de Vila Facaia não é, porém, sofisticado. - Para quem não sabe onde é Vila Facaia e que de vila só tem o nome, trata-se de uma aldeiazinha - com traços dessa ruralidade quase perdida - ali para o lados de Pedrógão Grande, um concelho ao sul da Serra da Lousã, recortado pelo intenso azul do Zêzere. O Pão de Vila Facaia tem, em si, a particularidade de nos recordar, de imediato, esses tempos verdes. É um alimento pujante de vida, da natureza que envolve estas paragens, do conhecimento e experiências ancestrais, adquiridos por quem cresceu no seio da arte de o produzir. É um Pão que dá vontade de saborear, ali mesmo, à saída do forno, alimentando os sentidos com a sinuosidade da sua côdea mais alourada ou morena, conforme o grau de cozedura e as farinhas utilizadas, com o seu odor, com o seu paladar inconfundível a recordar-nos aconchego e conforto. A Dona Deonilde tem, parafraseando a sabedoria povo, “comido o pão que o diabo amassou”. O Pão tem sido a sua empresa de vida, o seu projecto e o seu sonho. E eles têm crescido, mesmo com a saúde a pregar partidas, como se o empenho que coloca no fabrico do pão fosse a levedura que o faz crescer. ![]()
O grande segredo da Dona Deonilde é que, mesmo depois disto tudo, ainda vende hoje um pão com alma. Alma da terra que deu o grão, da sabedoria antiga que do grão fez farinha e da farinha pão. Alma de uma vida que se fez nas voltas de amassar o pão.
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