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1 de Março de 2010Os 100 Artigos + lidos
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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Crónica | |||
| Escrito por Magalhães dos Santos | |||
| Terça, 01 Junho 2010 00:10 | |||
![]() ![]() PROPOSTA CONTRA A PRETIDÃO DAS COISAS Magalhães dos Santos É ponto assente que as coisas estão pretas! Ponto assente é também que cada um tem de fazer o que estiver ao seu alcance para despretar as coisas. Escrevi despretar e escrevi o que quis: torná-las menos pretas, clareá-las, pô-las luminosas, refulgentes. Mais outro ponto (o que se chama “um grande ponto”…) é que cheguei à conclusão de que vou ser eu – eu todo, de alto a baixo, nem tantos centímetros são… a - quem vai pôr as coisas no são. Consegui uma audiência com o Zepridente da Perrública e expus-lhe as minhas ideias. À medida que as ouvia, iluminava-se-lhe a cara – normalmente fechada e trombuda – e abraçou-me efusivamente, dizendo-me, a soluçar de contentamento: - É isto, meu Amigo! É mesmo isto! Mas olhe: como é que Bossemecê vai apresentar isto na Assemboleia? Bossemecê não pertence a nenhum partido com assento naquele covil… - É aí que entra o Sô Zepridente! - Eu??? – assarapantou-se o venerando. - Sim, o Sô Zepridente! Bota cá pra fora um dos seus decretos ou um diploma assim do género, a dizer que é do interesse do País a introdução de mais um partido na Assemboleia… - Realmente, mais um menos um… Ninguém ia dar conta… E Bossemecê ia exigir aquelas mordomias todas que eles por lá têm?... Dar mais despesa? - De modo nenhum, Sô Zepridente! Pelo contrário! Verá! Tomo assento como deputado do Partido da Decência… - Boa designação! E Bossemecê parece-me um home limpinho! - Lavo-me frequentemente, por dentro e por fora, Sô Zepridente. E, então, chego lá e apresento a minha proposta de redução de despesas com ordenados e pensões no país. Isto pra já! Outras coisas ficavam para próximas ocasiões. Há muito para fazer, Sô Zepridente! - A quem o diz, meu jovem amigo! Eu estou por dentro destas vergonhas todas… - Pois não parece, Sô Zepridente… Fizesse o Sô Zepridente o mesmo, dquirisse hábitos de higiene interior e exterior, e não era, ao pé do senhor esta pestina… Mas, adiante! As minhas propostas são aceites, o Sô Zepridente promulga e… pronto! Esse ponto fica resolvido e as coisas começam a despretar… - Despretar?! Isso vem no dicionário?... - Ainda não vem, mas o Sô Zepridente manda publicar no Diário da Perrública e já lá fica… E significa tornar as coisas menos pretas, clareá-las, pô-las luminosas, refulgentes… - Percebo, desta vez percebo! Também Vossemecê explica-se tão bem… Assim fizessem os aldrúbias do Governo… Home, é já para amanhã, apresente-se lá na Assemboleia e bote prò mundo! …………………………………………………………. Assim fiz, apresentei-me, tomei assento numa cadeira volante - para que não me acusassem de ser de Direita nem de Esquerda nem do Centro. ![]() Mal o presidêncio da Assemboleia me concedeu a palavra, eu, como tinha de aproveitar avaramente o curto tempo de antena a que tinha direito, entrei logo no assunto. E disse: - Minhas poucas senhoras e meus demasiados senhores. Olá! Pertenço ao Movimento da Decência, que, por muito que a todos custe, tem muitos e muitos simpatizantes, o que se deve à indecência de que se tem revestido a atuação dos partidos aqui representados, em muitos casos tão mal representadinhos, diabos os levem! (Nesta altura já se ouviam as habituais vozes discordantes, e gritos de “Fora!”, “Reacionário!”, “Estraga-albardas”, igualmente se ouvindo a voz do presidêncio com os seus inúteis apelos “Ordem!”, “Ordem!” Mas eu, corajosamente, continuei). “Temos ouvidos e lemos, não podemos ignorar!” Só os anormaizinhos que aqui estão é que são cegos, surdos e analfabetos, ou inconscientes e palermas, que não dão conta da onda de revolta que inunda o país e que, se ainda não passou a revolta armada, é porque… porque o Zé Povo ainda conserva alguma da bovina paciência com que suporta tudo… com que até aqui tem suportado tudo. Mas até essa mansa paciência se esgota e… esgotou-se… Embora Vocês não saibam que fazer ao tempo que aqui passam, porque não se vê coisa de jeito que daqui saia, vou apresentar já o meu projeto de contribuição para lutar contra a crise, essa decantada e desgraçada e desgraçadora crise de que não tendes as mãos limpas, por muito que as laveis pilaticamente e por mais que sacudais o capote. As medidas que proponho e que são para aplicação i-me-di-a-ta visam dois objetivos: contribuir, modestamente embora, para a atenuação do défice; e promover a moralização das remunerações do setor público, que deverão ser extensivas ao setor privado. A decência – e eu represento o Movimento da Decência, não o esqueçam Vocês todos, que se têm manifestado indecentemente contra a decência – a decência impõe que se implante a decência nos ordenados, reformas, pensões e mordomias que escandalosamente beneficiam uns, em claro e repugnante prejuízo da imensa maioria que assiste, enojada, ao “fartar vilanagem” de que são atores os que aqui estão e os amigalhaços que estão pousados nos poleiros que os de cá de dentro lhes arranjaram. Que lhes arranjaram na mira de, à saída, terem conchego de colchões de plumas e mesa faaaaarta. Vamos estabelecer a seguinte tabela de remunerações: Quem ganha 700 Euros passa a ganhar 650; 800 > 700; 900 > 750; 1000 > 850; 1200 > 1000; 1400 > 1100; 1600 > 1200; 1800 > 1300; 2000 > 1400; 2300 > 1700; 2600 > 1700; 2900 passa a receber 2000; 3300 > 2200; 3700 > 2300… Até aqui a Assemboleia mantinha-se calma e atenta, ouvindo-se mesmo, daqui e dali, uns tímidos “Apoiado!”, Muito bem!”,”Chega-lhe azeite!” Mas eu, indiferente a vozes de apoio ou de contestação, continuei a minha cruzada de decentificação. Quem recebe 4100 receberá, daqui em diante, a contar de amanhã, 2500; 4500 > 2700; 4900 > 2900; 5400 > 3100… Nesta altura já não se ouviam os “Apoiado! “, nem os “Muito bem!”. Um sussurro ameaçador ia-se elevando num crescendo raveliano, significativo de que os deportados estavam para me fazer injustamente o que o Povo há muito tempo, justamente, devia ter-lhes feito a eles. E eu, quase suicidariamente, prossegui: Quem recebe 6000 governar-se-á com 3300; 6600 > 3500; 7200 > 3700; 7800 > 3900; 8500 > 4000; 9200 > 4200; 9900 > 4400; 10 600 > 4600; 11 400 > 4800… O barulho na assemboleia já era ensurdecedor. Todos os deportados berravam, protestavam, me dirigiam gestos ameaçadores. E o presidêncio acalmava todos: - Calma, senhores deportados (-1700), já tomei as devidas medidas! Calma! Como se não fosse nada comigo, terminei: - Quem se alambaza com 13 200, que remédio terá – coitadinho! – senão governar-se com 5000; com 14 000 – 5100; 14 900 > 5200; 15 800 > 5300; 15 900 > 5400; 17 000 > 5450; 18 300 > 5500; 19 700 > 5550; 21 200 > 5600… Quem ganhar mais do que isto… não ganha mais do que isto… E o que sobrar não faltará onde o aplicar… Como dizia o meu Colega Luís Vaz: “Fareis os Reinos grandes e possantes, / E todos tereis mais e nenhum menos”…E recuperava-se… ou melhor: pela primeira vez se instaurava a decência neste aspeto da vida nacional… A outros chegará, brevemente, a sua hora. E deixa-se, larga-se a vergonhosa obscenidade em que se tem vivido… E se alguém tiver a desfaçatez de protestar que com esses ordenados não se pode nem viver nem, sequer, sobreviver, eu lembro-lhe que há quem tente respirar com bem menos… ……………………………………………………………………………………….. Foi neste momento que, com o aplauso de todas as bancadas, o GOI (Grupo de Operações Incríveis) invadiu a sala da Assemboleia (eram essas as medidas tomadas pelo presidente da pocilga paralamentar), se aproximou de mim com ares façanhudos, me agarrou pelos colarinhos e pelo fundo das calças e me levou de rastos para uma ambulância blindada e gradeada que, escoltada por um batalhão motorizado da GMR (Guarda Mortífera Raispartana), me levou até ao Hospital Psiquiátrico Magalhães Lemos. Aí fui submetido a uma junta médica. Um dos membros da junta ainda disse, em meu abono, que eu era inofensivo, que não fazia mal a uma mosca e que podia andar à solta. Logo os outros vinte e três junteiros se ergueram, incendiados, a descompô-lo, vociferando que eu era um elemento perigosíssimo, infeto, pernicioso, terrivelmente contagioso… com quem todas as medidas de segurança eram curtas e insuficientes. Reclusão absoluta, isolamento rigorosíssimo, televisão de grilo, recreio só quando lá não estivesse ninguém … sempre vigiado por quatro batalhões da GMR, cinco brigadas da PJ (Hota), cinquenta agentes da PSHT (Polícia Sanitária Hospitalar Técnica), quatro helicópteros a sobrevoarem o recinto, para evitarem tentativas de rapto… Incomunicável… De dentro para fora e de fora para dentro… Era como se eu deixasse de existir para o mundo e o mundo para mim… De uma cela - almofadada e fechada a sete chaves, uma em poder do presidente da assemboleia (tinham deixado de confiar no Zepridente da Perrública… tinha sido ele o culpado da minha entrada na arena de S. Bentas), as restantes entregues aos sacratários-gerais dos repartidos - lhes escrevo, Prezados Leitores. Sei lá se esta mensagem sairá dos muros – reforçados em altura e em espessura, desde que cá entrei – do Hospital-prisão Psiquiátrico Magalhães Lemos. Vou tentar… Se ela lhes chegar às mãos… Façam circular esta mensagem, pelas alminhas! Não lhes peço que me tirem daqui! Peço-lhes que tirem o povo português da apagada e vil tristeza em que chafurda… Magalhães dos Santos 1 de Junho de 2010
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