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1 de Março de 2010Os 100 Artigos + lidos
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Última Actualização
Última Actualização: Quinta, 17 Maio 2012 - 09:00 GMT+00
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| Crónica | |||
| Escrito por Jorge Castro | |||
| Sábado, 24 Abril 2010 09:00 | |||
![]() CONVERSA COM UMA JOVEM DE 12 ANOS QUE ME QUESTIONOU SOBRE MEMÓRIAS DO 25 DE ABRIL DE 1974 Jorge Castro Perguntas-me tu, amiguinha, de que me recordo eu do 25 de Abril de 1974?... Tinha 22 anos. Estudava e esperava - ou desesperava - que me chamassem para o cumprimento do serviço militar. Considerava aquela guerra injusta e ponderava seriamente na hipótese de desertar, o que, ao contrário do que pretendiam alguns «espertos», não era um acto de cobardia, mas sim de muita coragem. Coragem que eu ainda não tinha toda dentro de mim. Desenvolvia, desde os meus 18 anos, alguma actividade semi-clandestina contra o que se chamava de Estado Novo. Entre outras coisas, com um grupo de amigos integrava, eu como professor de Português, um projecto de aulas para adultos trabalhadores e carenciados, a quem não cobrávamos um tostão por leccionar. Na faculdade onde estudava, participava, também, numa série de actividades políticas contra o deplorável estado do ensino, contra a guerra colonial... Enfim, histórias compridas e, talvez, chatas para te trazer agora. Posso dizer-te que poucas semanas antes do 25 de Abril atirei ao mar, no Guincho, uma máquina de escrever velha onde «batia» os stencils de comunicados clandestinos... E queres tu saber porque teria eu atirado a maquineta ao mar? Simples: alguém me avisou de que eu e alguns dos meus amigos andaríamos a ser vigiado pela polícia política (a PIDE, como saberás) e como as máquinas de escrever eram facilmente identificáveis pelo tipo de letras e falhas ou particularismos nos seus caracteres, lá foi a máquina, companheira de muitos gritos de revolta, para o fundo do mar do Guincho. Nem te passa pela cabeça as explicações malucas que tive de inventar para atenuar a ira do meu pai por causa do desaparecimento da máquina... Conto-te este pequeno acontecimento, apenas para ilustrar algo que era então corrente, nos meios que eu frequentava, e que hoje te poderá parecer tão sem sentido ou, até, estranho. No 25 de Abril, por volta das sete horas da manhã, telefonaram-me para casa e disseram: "Está a ser hoje! Os militares estão na rua, pá. Em Lisboa. Hoje, ou vai ou racha!..." (qualquer coisa de parecido com isto. Não te garanto que tivesse sido dito exactamente com estas palavras...) Saltei da cama. Vesti-me a correr. Avisei os velhotes - que sempre foram boas e pacientes pessoas e, apesar das preocupações, davam cobertura às minhas «avarias» - e sabes o que fiz? Como era fotógrafo amador - para ganhar uns tostões extra... - agarrei na minha velha máquina fotográfica Voïgtlander, peguei em meia dúzia de rolos a preto e branco e fui de comboio para a baixa de Lisboa. ![]() Cheguei lá, seriam cerca de 9 horas da manhã. Corri até à Praça do Município... e começou a aventura! Soldados por todo o lado, em posições de combate. Viaturas militares imensas e estranhas na baixa pombalina. E as pessoas cinzentas do dia anterior, de repente sorriam. Apreensivas, primeiro. Depois, em correrias de querer abarcar tudo o que se passava. Depois os gritos, os vivas à liberdade, vitória... mesmo sem haver grande percepção de quê. Sabia-se, apenas, que era "contra o regime" e bastava! E começou a ser um mar de gente a invadir a baixa de Lisboa, apesar dos avisos reiterados que passavam nas rádios para ninguém sair de casa. E aí se terá passado o fenómeno para mim mais marcante da Revolução de Abril: de súbito liberto da opressão em que vivia, o povo irmanou-se aos soldados, sobrepôs-se a eles, encheu-os de vivas e de cravos, tomou a Revolução como sua, numa anarquia feliz e incontida, em que todos éramos irmãos... excepto, claro, os pides a quem de imediato se começou a dar caça sem tréguas (pois muitos deles eram bem conhecidos), ainda que não se tenha vertido nessa vingança uma gota de sangue, ao contrário do que viria a acontecer, pouco depois, com a meia dúzia de cães raivosos que no edifício da António Maria Cardoso, numa última manifestação da sua cobardia, dispararam indiscriminadamente contra a multidão desarmada. Por todo o lado se organizavam comícios espontâneos. As pessoas redescobriam a arte de se reconhecerem nos outros, em plena luz do dia. Pois é... e a meia dúzia de rolos fotográficos foram incomensuravelmente poucos para documentarem tanta felicidade. ![]() *** ARTIGOS RELACIONADOS:
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